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No Tribunal da Lousã encontra-se uma belíssima pintura da autoria de Lima de Freitas, constituída por um tríptico subordinado ao tema “Sol da Justiça”.
Tendo-nos
sido, amavelmente, cedida pelo autor, a “Memória” em que o mesmo se baseou
para a realização de tão soberba obra, entendemos que o melhor que podíamos
fazer era publicá-la, na íntegra, a fim de permitir a todos uma melhor
compreensão da temática, bem como uma cabal explicação das interpretações
pictóricas.
Importa
acrescentar uma nota que nos foi transmitida pelo autor e que reputamos de
grande importância para melhor apreciação da obra. Todas as figuras do tríptico,
com excepção da máscara da “velha” que oculta o rosto de Vénus e a
figura de Cristo, são retratos de pessoas. A princesa Peralta é uma amiga do
autor Catherine Wolff; um dos personagens que estão atrás da “velha” tem o
perfil de Almada Negreiros; no volante do lado direito estão, nomeadamente, um
auto-retrato e retratos do poeta Jorge Guimarães, de duas filhas do autor e de
Martim Lapa, filho do pintor Manuel Lapa.
Vale,
pois, a pena uma deslocação à simpática Vila da Lousã onde, para além das
belíssimas paisagens serranas, se pode observar esta obra-prima.
E
num momento de muitas crises, como é o que vivemos, só podemos fazer votos
para que o “Sol” presente nesta pintura seja estímulo para que se faça uma
cada vez melhor JUSTIÇA!
O
painel do lado esquerdo — do lado da espada de fogo da figura do painel
central — será dedicado à lenda da serra da Lousã, ligando-se deste modo a
inspiração da obra às próprias tradições do lugar ao qual se destina. A
lenda evoca os tempos muito recuados do rei Arunce, déspota entregue a caçadas
e festins, à ostentação e aos prazeres de uma corte brilhante, enquanto o seu
povo, oprimido, sofria na mais dura miséria. Indignados, os deuses enviaram Vénus
— deusa do amor, aqui obviamente entendido in sensu lato e
compreendendo a compaixão, o dó, o amor do próximo — a qual chegou ao palácio
do rei Arunce, em Colimbria, disfarçada de velha pedinte e que procurou chamara
a sentimentos mais piedosos e equitativos os corações das belas cortesãs,
entregues exclusivamente às seduções mundanas. Vénus julgava, sobretudo
demovendo a belíssima princesa Peralta, poder minorar a sorte dos humildes e
inclinar o monarca e a sua corte a uma noção de justiça social. (Esta conotação
da lenda denuncia, aliás, uma origem relativamente recente, bem dentro dos
princípios do humanitarismo cristão). Mas a missão da deusa falhou. Os deuses
decidiram, então, precipitar sobre Arunce, Peralta e a sua corte várias desgraças
punitivas: invasões inimigas, derrotas, as humilhações da fuga e do exílio.
A lenda refere o castelo próximo da vila da Lousã como lugar de abrigo dos
fugitivos e relata a morte das aias, criadas e damas companheiras de Peralta, ao
longo das duras caminhadas pela serra, até a mesma deusa do amor transformar,
por fim, os sobreviventes em penedos e montanhas.
Ocorre
anotar, à margem, que a intervenção de Vénus no tecido lendário é um traço
de cepa culta: também Camões (que estudou perto, em Coimbra) recorreu à mesma
deusa quando precisou de um advogado para o Gama e os navegadores portugueses no
areópago dos deuses. É interessante, por outro lado, comparar o fim de
Peralta, a quem faltou amor, com o fim de Teseu, petrificado no Hades por ter
traído Ariane: penhascos e estátuas de pedra, como os corações dos
castigados.
A
composição mostra o momento em que Vénus, disfarçada de velha e condoída
dos pobres, chega ao palácio e se encontra com a bela Peralta. No Céu os relâmpagos
evocam a cólera divina, que paira sobre o reino de Arunce. Um resumo da lenda
será escrito nos degraus inferiores da escada, sob a figura da princesa, afim
de facilitar a compreensão do tema a quem desconheça a lenda.
O
painel do lado direito — ao lado da balança do painel central — mostra a
mesma figura feminina do Amor, junto de crianças, de homens e mulheres humildes
— as primeiras e principais vítimas do desprezo pelas normas da moral e da
justiça — sobre quem brilha o sol nascente de uma alvorada; a mesma luz
matutina ilumina as serranias de uma paisagem inspirada nos panoramas da Lousã.
Trata-se do “Sol da Justiça” a que se refere a legenda inscrita na
filsetera — sol da verdade que põe a claro o falso e o obscuro, revela faltas
e méritos e reparte a sua luz sobre todos os homens sem distinção. Este
painel procura inculcar o sentimento de “paz na terra”, no amor e na
justiça, de esperança no triunfo do direito, respondendo pois, em modo
“positivo, ao painel da esquerda, que evoca o rigor do castigo merecido.
Entre a “cólera” e a “compaixão”, o painel
central representa o “Sol da Justiça”, figura simultaneamente solar
e cristológica do Juiz supremo, encarnação da justiça na sua conotação
escatológica. Esta figura inspira-se numa tradição iconográfica muito antiga, ilustrada no dealbar da era moderna por uma
bela e estranha gravura de Alberto Dürer intitulada, justamente, “Sol
Iustitiae”. Panofsky demonstrou que o “Sol Iustitiae” do grande
artista alemão constitui a fusão de duas tradições, uma pre-cristã, de
origem asiática e egípcia, a do deus-sol; outra cristã, com raízes no Velho
Testamento e exemplos na iconografia medieval do Cristo “Juiz”,
tradicionalmente sentado num trono, de pernas cruzadas em X.A força religiosa
do deus-sol pagão atingiu o seu máximo no período helenístico, como “Helios
Pantocrator”; posteriormente foi proclamado por Aureliano, “Sol
Invictus” e suprema divindade do império romano. A implantação do culto
solar era tão forte que o cristianismo assimilou muitos dos seus aspectos. A
Igreja sancionou a união Cristo-Sol, mas deslocou o acento tónico do aspecto
cosmológico para o aspecto ético: o “Sol Invictus” transformou-se
em “Sol Iustitiae”. A “equação” unindo divindade, sol e
justiça encontrava, aliás, confirmação no versículo do profeta Malaquias: “Et
orietur vobis timentibus nomen meum “Sol Iustitiae” (E para vós
que temeis o meu nome erguer-se-á o Sol da Justiça).
Segundo Panofsky, Dürer inspirou-se no “Repertorium
morale” de Petrus Berchorius, que foi uma das enciclopédias teológicas
mais populares do fim da Idade Média e cuja primeira edição, de 1489, foi
impressa pelo próprio padrinho do pintor. O texto de Berchorius que se liga
directamente à concepção do “Sol Justitiae” é o seguinte:
“Digo também deste sol que ele abrasará, no exercício
do seu supremo poder, isto é, no dia do Juízo Final, em que se mostrará
rigoroso e severo (…). Porque então será todo ele ardente e sanguinolento de
justiça e rigor. O sol, com efeito, quando está no meio do seu percurso, ou zénito,
é quando está mais ardente: assim Cristo será quando aparecer no meio do Céu e
da terra, isto é, no dia do Juízo. No máximo da sua ardência, no verão,
quando se encontra no signo do Leão, o sol queima as ervas, que voltam a
crescer na primavera. Assim Cristo, no calor do Juízo, aparecerá como um homem
semelhante a uma fera e a um leão, queimará os pecadores e devastará a
prosperidade de que os homens haviam gozado na terra”.
Panofsky comenta:
“Estas frases mostram-nos a que ponto a imaginação do fim da Idade Média,
atormentada por visões apocalípticas e ao mesmo tempo penetrada de noções
importadas através da influência sempre crescente da astrologia árabe e helenística,
voltou a incutir uma vitalidade terrífica à antiga imagem do “Sol
Iustitiae”. Esse sol que a época
paleocristã fora ainda capaz de revestir de uma beleza apoliena, assumia agora
os poderes de uma entidade astral, ao mesmo tempo que adquiria a majestade do Juíz
supremo: foi assim “Judex
in-judicio”, mas também "Sol in leone” (a casa
do Zodíaco na qual o sol “atinge o zénite do seu poder),
“ardente e inflamado” como o astro cintilante, “sanguinolento e severo”
como o Deus vingador do Apocalipse”.
O génio de Dürer foi
capaz de operar a fusão, numa imagem única, destas várias energias míticas e
religiosas, éticas e simbólicas. O painel central do tríptico inspira-se, por
seu turno, na visão do grande artista de Nuremberga (que foi amigo de Damião
de Goes).
Afigura-se-me ser este um modo apropriado de relacionar a ideia de justiça com a Lousã e suas lendas, já que a fábula do rei Arunce e da princesa Peralta, simultaneamente cristã no espírito e vestida de roupagens mitológicas romanas ‑ tal como na figura do “Sol Iustitiae” se funde o “Sol Invictus” imperial e o “Cristo Pantocrator” ‑ contém uma mensagem de essência apocalíptica: a cólera dos Deuses, o juízo e a punição materializada (para usar os termos de Berchorius) na devastação da prosperidade de que os homens haviam gozado na terra; mensagem bem apropriada, por outro lado, não apenas ao fim Idade Média mas também (indubitavelmente!) ao nosso tempo, e perfeitamente em diapasão com a inspiração do profeta Malaquias ao invocar o "Sol da Justiça”.["Boletim do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados". Coimbra, Ano II, nº. 4, Dez. 1997].