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Carlos Reis e a Lousã Belezas
que o encantaram Amizades que o prenderam Maria Emília
Mexia Santos
A
Lousã percorria os anos, modesta e calada, numa existência tranquila e
sem incidentes. A sua beleza era um tesouro ignorado, um presente raro da
natureza que se oferecia num viço sempre renovado. O tempo passava numa
orgia de verdes novos e diferentes, que eram uma aguarela viva. Um vale
extenso cercado de montanhas, semeado de um casario branco e disperso onde
desabrochavam primaveras e verões exuberantes. Nos outonos dourados de
tardes dormentes, a luz era coada pelo fumo das lareiras. Numa tarde de Outono chegou Carlos Reis, numa ânsia de colher beleza. Uma beleza que se desprendia e morria virgem, de olhos artistas que a apreciassem, de mãos artistas que a eternizassem. Um
parente do mestre Carlos Reis fora em tempos administrador do concelho da
Lousã [1901 - João Amado de Melo Ramalho, de Torres Novas] e falara-lhe dos encantos da terra, da sua luminosidade e coloridos
inéditos. Foi este encanto pictórico da paisagem e também a poesia que
dela se desprende, o que atraiu definitivamente Carlos Reis. Quando o
mestre chegou à Lousã, acompanhado pelos seus discípulos, encontrou
extasiado um gigantesco quadro pintado pela Natureza. E ele, que viera
numa tentativa de renovação de motivos, apaixonou-se pelo lugar que
visitava. Pressentiu nele uma gama de aspectos sugestivos, não só paisagísticos
como etnográficos. Aspectos que iriam por certo enriquecer de uma maneira
extraordinária a sua já vasta galeria de pintura. Evidentemente que as
pessoas da terra não poderiam ficar indiferentes com a presença de tão
destacada personalidade. Em breve Carlos Reis se relacionou. A sua agradável
companhia, a sua conversa viva e inteligente tornou-se
disputada por todos. Um desses lousanenses foi-lhe casualmente apresentado um dia, nascendo entre ambos uma amizade sólida e longa. Foi o Dr. Carlos Sacadura. Dotado de rara sensibilidade e inteligência, profundamente ligado à Lousã, sentiu-se lisonjeado com a preferência de Carlos Reis pela sua terra. Também o Dr. Carlos Sacadura via com os olhos de artista e de poeta a sua terra e todas as belezas naturais. Carlos Reis e o Dr. Carlos Sacadura logo pressentiam uma identidade de gostos e de ideias, uma harmonia de génios e de inteligência, que foram na base de uma boa amizade. Passados cerca de três anos, Carlos Reis rendeu-se ao encanto da terra, ao ambiente amigo e carinhoso que lhe deparou. Num dia de sol primaveril, alguém se lembra de ter acompanhado Carlos Reis ao terreno escolhido para a construção da sua casa e atelier.Uma lagartixa teimosa espreitou durante todo o tempo as evoluções do novo proprietário, apesar de Carlos Reis a perseguir impertinentemente com a ponta de uma vergasta. Data de alguns dias após esta visita local da futura residência, em curiosa carta de Carlos Reis ao Dr. Carlos Sacadura, recordando o pormenor da insistência da lagartixa, que deu a sua casa o nome definitivo. Eis a carta: 30-04-1918. ...
Pois muito bem. Com que então estou proprietário da Lousã. Nesta altura
da vida, em que a simples mudança da gravata nos causa embaraços,
imagine V.ª Ex.ª da perturbação do meu espírito por ter agora de
tomar uma compostura, uma gravidade própria dos proprietários que eu não
sei como encaixar no meu já crónico feitio de pelintra de má morte.
Depois, repare V. Ex., agrava-se o ridículo da minha nova situação,
quando se pensa que a natureza dos meus domínios me não veio salvar da
situação anterior ficando do mesmo modo “sem eira nem beira nem ramo
de figueira”. Se o Gervásio Lobato vivesse com o Schewalbak desse pela
coisa, tomavam-me à sua conta fazendo-me personagem de ópera cômica no
repertório da Trindade, e eu era um homem encravado para o resto da sua
vida. Afinal,
tudo isto não passa por enquanto de fantasias de lunático, e digo
fantasias porque ainda não sabemos se o homem nos vendeu ou não aqueles
torrões amarelos cercados de cinzas oliveiras, onde vive uma
lagartixazinha esperta e curiosa, que, de cabecinha levantada pretendia
indagar do destino que se pensava dar ao seu solar dos seus avós
lagartixas, há tantos anos fundado entre silvados e pedras. Logo
que perdi de vista todos os bons amigos que tiveram a galantaria de virem
à gare acompanhar o novo “abastado proprietário”, procurei na
folhinha que santo era o da véspera (4.ª feira) para que o seu nome
desse o nome à minha sonhada tebaida. Mas, horrar, esse dia foi quarta
feira de trevas. Não quereria o acaso indicar assim que o meu espírito
está em trevas? E não haverá razão para assim ser, considerando o de
quem se faz de proprietário... sem vintém? Mas,
feito o mal (ou o bem) vamos a remediar a fatalidade do dia... O
Casal da Lagartixa ergueu-se cheio de encanto, de linhas simples e
alegres. Ficava no meio da encosta e das suas janelas abrangia-se todo o
vale no seu espectáculo de cor e de luz. Encontrei
a carta que transcrevi num maço guardado por meu Avô. Contendo a sua
correspondência com Carlos Reis. O invólucro das cartas tinha a seguinte
legenda “Pintor Carlos Reis. Cartas durante 20 anos de uma boa
amizade”. Permito-me
transcrever também as palavras com que meu Avô iniciou o seu discurso na
homenagem póstuma prestada a Carlos Reis pela Câmara da Lousã em 1 de
Novembro de 1941: “Vinte
e cinco anos de convivência estreita e afectuosíssima me ligaram a
Carlos Reis, com laços de uma amizade que a morte não matou. Se
se ergueu na minha vida de velho mais uma cruz, essa cruz permanece
luminosa, porque a memória do grande artista, pintor, poeta e amigo
gentilíssimo é das que não morrem
no coração de quem de perto o conheceu e apreciou”. E
mais adiante: “Pintor
e poeta lhe chamei eu já e com justiça, dando ao nome de poeta a sua
mais alta e nobre significação. Nem sempre é poeta o que se verseja. É
sempre poeta o que se sente e vive a beleza das coisas, o que por qualquer
momento tem prazer em traduzi-la e fixá-la em ardentes desejos de perfeição”. Creio que com estas palavras definem Carlos Reis. São ditas com a autoridade de quem possuía uma sensibilidade rara, que sabia reagir à beleza das coisas e responder aos seus apelos. Não seria um poeta o Dr. Carlos Sacadura, quando chamava “noivas” às pereiras cobertas de flor branca, desabrochando a seus olhos na primavera clara da Lousã? O Dr. Carlos Sacadura compreendia a beleza. Sentiu-se preso à presença de Carlos Reis. O grande Mestre, seu amigo, para além da compreensão da beleza, possuía uma raro dom de eternizá-la. Nas suas longas temporadas no Casal da Lagartixa, Carlos Reis familiarizou-se totalmente com a terra com que o conquistara. Não olhava as paisagens da sua janela. Saía de casa, dispersava-se pelos campos, fixando a rudeza das árvores, o ingénuo encanto dos carros de bois. Ia até ao povo, dissecava-o, procurando nele os seus mais curiosos aspectos, os seus mais estranhos costumes. Bebia os pormenores e registava-os. Deixava-se encantar pela ingenuidade das procissões de “anjinhos” engalanados e felizes. Pela brancura imaculada dos véus de comungante, pelo amor espontâneo e sem artifícios que vive nas cantigas populares e pela singeleza das festas de baptizado. Não ficou ainda indiferente à beleza cheia de mistério da lenda sobre a fundação da Lousã e dedicou-lhe um quadro magnífico, que foi a sua última tela e se conserva como relíquia no salão nobre da Câmara Municipal. Para pintar o povo, o Mestre queria conhecer o povo. Tornou-se uma figura querida da Lousã. Todos pousavam para os seus quadros, de bom grado, desejosos de se verem num retrato vivo. O Mestre conhecia as raparigas mais lindas, as velhinhas mais doces, os homens mais expressivos. Carlos Reis fez época na Lousã. Era apreciado por quantos o conheciam, a sua opinião era ouvida nos mais pequenas pormenores decorativos e a sua colaboração pronta, disputada em problemas surgidos nas construções da época. A Lousã é um traço de bucolismo, uma pausa de tranquilidade e contemplação na vida e na pintura de Carlos Reis. Se ele ficou devendo à Lousã toda uma galeria dos novos cambiantes, a dívida da Lousã ao grande Mestre é incomensurável, pois nele encontrou a reprodução fiel e a compreensão total da sua beleza. A imagem de Carlos Reis perdura no espírito de gerações lousanenses, numa homenagem sempre renovada a quem tão bem amou e pintou a sua terra. Damos a seguir
algumas notas biográficas do Dr. Carlos de Mascarenhas: O
Dr. Carlos de Sacadura Botte Pinto de Mascarenhas nasceu na Lousã, no dia
2 de Dezembro de 1871 e faleceu na mesma vila no dia 28 de Novembro de
1948. Era filho de Pedro Soares Pinto Mascarenhas Castelo Branco e de D.
Ana Bárbara de Sande de Sacadura Botte Corte-Real. Formou-se
em Direito pela Universidade de Coimbra no dia 20 de Junho de 1893, e foi
nomeado conservador do Registo Predial na Lousã, onde exerceu a advocacia
com grande distinção. Era consultado com frequência por numerosos
colegas, que recorriam às suas reconhecidas qualidades de prudência, bom
senso jurídico e conhecido saber. Foi
presidente da Câmara Municipal da Lousã e chefe local do partido
regenerador liberal, tendo acompanhado o conselheiro João Franco de quem
era amigo pessoal. Era
governador civil de Leiria à data do regicídio, tendo sido eleito
deputado pelo círculo de Pombal nas últimas eleições da Monarquia. Afastado
da actividade política, após a proclamação da República, manteve-se
contudo fiel às suas convicções políticas, tendo pertencido ao
Conselho da Lugar Tenência de El-Rei D. Manuel II. Muito
dedicado à sua terra e aos seus amigos, entre os melhores contava Mestre
Carlos Reis, soube criar-lhe na Lousã o merecido ambiente de afectuoso
respeito e dedicação pelo povo que o admirava, conseguindo comunicar-lhe
o mesmo entusiasmo pela sua terra. Carlos
Reis, em resultado das suas relações com o Dr. Carlos de Sacadura,
construiu na Lousã o seu atelier e o Casal da Lagartixa, onde recebeu a
sua visita dos mais ilustres artistas seus contemporâneos. No atelier da
Lagartixa Mestre Carlos Reis pintou as suas últimas maravilhosas telas, não
sendo difícil verificar na sua correspondência para o Dr. Carlos de
Sacadura, a influência deste no ambiente espiritual dos últimos dias do
grande Mestre.
In:
“Nova Augusta. Revista de Cultura”. Torres Novas, 2 Agosto 1963, p.
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