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João Reis

Carlos Sombrio

DA VIDA E DA OBRA DO PINTOR

 

Na Quinta dos Lagares d'El-Rei, tinha o Mestre Carlos, Reis a sua moradia, ao tempo.

Afastara-se propositadamente do convívio e do contacto das multidões.

A sua arte, as ingratidões e as invejas que sempre surgem no caminho dos que têm mérito e possuem talento, indicaram-lhe esse afastamento, — tão caro à hiper-sensibilidade do seu espírito delicado.

Era um velho solar século XVII, largo portão senhorial, amplas varandas corridas, com sua capela de orações e de actos religiosos, salões solarengos de tectos apainelados, página viva do nosso Passado — o Palácio dos Almadas.

Ali vivia o Mestre, consagrado por seus feitos de pintura, senhor duma arte que já era orgulho duma raça, onde se desdobravam os segredos das nossas paisagens fecundas de graça idílica, as cenas rústicas, fecundas de humanidade, e os retratos frementes de vida, tão expressivos e tão palpitantes que a alma transparecia a boiar nos olhos dos felizes retractados.

O amor à arte era todo o seu enlevo. A arte e a família. Dos filhos [Independentementede João Reis, O Mestre teve a ventura de ter mais duas filhas artistas: Maria Luísa, distinta pintora e Maria Leonor, inspirada poetisa, a quem nos referimos no “Sentimento Saudade na obra de alguns poetas e de alguns artístas”], um era varão, e o Pai, auscultando-lhe o brilho sintomático de vivaz inteligência estampado nos olhos do pequeno, vivos, claros e verdejantes como dois pedacinhos de cetim verde-azul — começava a sondar a criança, apetecendo-lhe tino e gosto pela arte da pintura, esquecendo-se na sua humana cegueira de pai quanto tinha lutado e sofrido para escalar o calvário da fama e entrar, cingido de louros, no templo da Glória.

Sonhou-o pintor. Pintor que fosse assim artista a dominar pelo talento as multidões que acorressem aos certames. Pintor que fosse assim artista, conhecido do mundo culto, grande nas lutas, grande no nome e grande nos triunfos!

Mas antes de artista, quisera-o homem de carácter. Homem de firmeza, de palavra — leal como um guerreiro nobre. Moldava-lhe a personalidade como se erguesse entre as suas mãos divinamente pródigas na criação de altas belezas, um bloco de argila.

E sonhava. Era assim que o queria. Varonil. Vontade de bronze, alma sedenta de perfeição eterna, coração onde coubessem afectos, bondade, amor.

Peça talhada por suas mãos, em fecundo labor de aperfeiçoamento constante, não sairia mais perfeita.

O pequeno entusiasmou se com a pintura. Atendera os conselhos do pai — era com se a sua personalidade fosse integralmente moldada dentro duma forma criada pelo Mestre, onde o sangue fosse o mesmo, o carácter se igualasse,— onde a vida do pai se projectasse em sombras, na vida prometedora do filho.

Aos sete anos, os seus brinquedos eram os pincéis e as tintas. A cor vertida dos tubos, espalhada em largas abundâncias pela paleta, era uma fascinação para os seus olhos.

Pai exultava, ao ver iniciado o seu grande sonho de Homem e de Artista.

Mais. A sua alegria, ao ver o filho seguir resoluto, confiado, pela vereda da arte, passos firmes, olhos vendados à fogueira onde se calcinam os entusiasmos que nos dominam, sentia no coração um doce encantamento de mal contida ventura — aquela santa e divina alegria que nasce em luz dentro de nós e que termina por comover.

Era, efectivamente, assim que o queria, assim que o sonhara.

O pequeno fizera 10 anos. Resolvera oferecer-lhe um presente de significação especial. Um livro de arte [Les Chefs-d’oeuvre de la Pinture de 1400 a 1800/Max Rooses].

Abrira a primeira página do volume, e no branco imaculado do papel escrevera com a alma um retalho do seu sonho puríssimo, também imaculado, em afectuosa dedicatória, que valia o fulgor duma lápide:

“15-2-1909

Ao meu querido João.

Se um dia chegares a igualar-te ao maior artista de que este livro fala, realizo as minhas esperanças e o meu maior sonho de artista; mas se fores em toda a tua vida, como agora és, um grande coração, uma alma elevada, generosa e digna, e um amigo leal, embora estas virtudes te dêem na vida horas de amargura, só recompensadas pela felicidade que nos dá a prática do bem, darás a teu Pai a maior de todas as venturas, sabendo-te querido daqueles que, como tu, forem nobres nas acções e no carácter.

Carlos”

 

O filho, que aos quatro anos oferecera a sua mãe um desenho de sua invenção, que revelava tendências para essa modalidade de arte, e que três anos mais tarde apresentava, ante a surpresa do pai, uma paisagem a óleo, escutara os conselhos. Na têmpera perfeita de tão eloquentes lições de elevação moral, moldava suas acções. Escutadas as palavras paternas, com elas se ia fazendo homem, ao mesmo tempo que aluno.

Passaram dois anos na inquietante e infantil sede do novel artista.

Desenhava já, e depois de construir, começava a pintar, dominado pela tentação das telas grandes...

Fazia-se a si próprio, o pequeno artista em frente à Natureza. A cor das coisas, mais do que o segredo das almas que o seu alvorecer ainda não entendera, prendia-lhe a atenção. E era como se sonhasse em permanente adormecimento, dominado pela arte que se desdobrava em duas modalidades distintas dentro do amanhecer da sua vida prometedora: — a pintura e a música.

Outros dois anos passaram.

Tinha catorze anos quando fez a sua primeira exposição. O Pai e Mestre receava não entendesse o público, e sobretudo a crítica, o esforço e o entusiasmo do infante-artista que reunia seis telas que desassombradamente queria mostrar.

Entrevistado por um jornal “O Intransigente” de 24 de Julho de 1914, Mestre Carlos Reis dissera: “Não imagina como receio que a apresentação do pequeno seja observada sob um critério injusto, porque não é um pintor que vai surgir por milagre. Fez-se a si próprio. Alcançara a Medalha de 3.ª classe (Pintura a Óleo) Paisagem. Era o seu primeiro prémio.

A exposição surgira. À volta do moço-pintor criara-se merecidamente um ambiente onde o carinho se enlaçava ao respeito. Esse prémio era como se coroasse o esforço de João Reis, e dera-lhe mais forte alento, para lutar e para vencer.

Decorre mais um ano. A imprensa começava a destacar-lhe o mérito, admirando-lhe o esforço e o exemplo de amor ao trabalho [“O Dia”, 24 Out. 1912]. Na Exposição Internacional Panamá-Pacífico, ganha a medalha de bronze.

Concorrera novamente a outra exposição, que lhe aceitara os quadros.

Estamos em 1915. O seu retracto aparece ao lado dos outros expositores em grupo encimado pelo Mestre. A crítica destacava-lhe alguns quadros, chamando-lhe o mais talentoso e extraordinário discípulo de Carlos Reis[“A Capital”, 26 Dez. 1915].

Outro jornal dissera [“Diário de Notícias”] que João Reis, apesar de muito novo, se apresentava magnificamente, mostrando-se senhor dos segredos da sua arte e um digno companheiro de seu Pai.

Na sua secção “Lisboa de Hoje”, para o “Janeiro”, Sousa Costa endereçava a “Meu querido Mestre” uma carta da qual retiro dois ou três trechos. Depois de citar quanto o tinham impressionado as magníficas obras de Mestre Reis, dizia: — “Queria falar-lhe — sabe de quem ? — Do seu rapaz, do seu filho, do seu João — da sua obra mais querida, daquela que mais deve lisonjear a sua admirável capacidade criadora. E nem é falar dele, o que eu desejo mas abraçá-lo, comunicando-lhe no meu abraço o encanto que me deixaram nos olhos, as suas tintas luminosas, a vibrar duma mocidade que não parece a dos quinze anos. Aos quinze anos, para se ver aquilo que é já o João é preciso adivinhar. A sua segurança de cor, de traço e de expressão não pode ser a resultante do estudo, a prova do trabalho, é o desabrochar do instinto, inconsciente e milagroso, filho pródigo do talento, irmão gémeo da força oculta que põe no setim das rosas a frescura vermelha duma boca de mulher.

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Essas coisas não se ensinam. Adivinham-se primeiro, sentem-se depois, e o ensino só serve para as valorizar quando se sentem. O seu filho está na fase da adivinhação. E adivinha tão excelentemente, que diante dos seus trabalhos, lembrando-nos dos quinze anos, somos obrigados a parar, a reflectir, a perguntar para onde vai, onde chegará nesse passo, por esse caminho, com os olhos tão claros dentro da noite do mistério, com observações tão exactas dentro dos problemas da vida...”.

1916 alvorecia...

“O ano artístico — dizia “O Século” — fechou com uma admirável nota de arte, nota que ainda por algumas semanas se prolongará. Queremos referir-nos à Exposição “Ar Livre” que na Sala Bobone continua aberta”.

Ocupando-se de João Reis, diz: — “João Reis, o mais novo dos cinco artistas, filho de Carlos Reis, apresenta-nos em seis quadros, seis obras primas, toda a pujança dum grande e formosíssimo talento que dia a dia, mais e mais se vem acentuando.

Como seu pai, é um poeta da luz e da cor, firme e seguro no desenho, já dum extraordinário vigor de técnica, e duma apaixonada intuição artística.

À volta do artista deixaram de existir vaticínios, apagaram-se todas as esperanças, para que a certeza de um triunfo definitivo surgisse radiosamente”.

Fizera vinte anos.

O pai, moldara-lhe o temperamento nas lições da dignidade, para que fosse um carácter perfeito.

E como Mestre, não lhe emendara trabalhos, para que o aluno se não educasse na mentira que, em vez de o engrandecer, em breve o derrotaria, irremediavelmente. Dera-lhe conselhos, e muitos, que eram lições proveitosas. Alegrara-se ao ver o moço seguir imperturbavelmente a sua rota, satisfazendo todos os seus grandes anseios.

Dez anos antes, tinha posto pela sua mão a dedicatória afectiva e exigente, num livro sobre arte, que lhe tinha oferecido.

Agora ia oferecer-lhe novo livro, também sobre o mesmo motivo [La Pinture em XIX Siécle de Léonce Sénédite], e no qual pusera outra dedicatória onde transparecia a merecida satisfação do seu sonho de Pai e de Mestre:

“15-2-1919

Ao querido João.

 

Há dez anos eu disse-te algures que o mais querido sonho de arte que tinha, era ver-te um dia igualado aos maiores mestres da Pintura; mas que a maior ventura para o meu coração de pai era ver sempre em ti a verdadeira nobreza de carácter com todas as virtudes de lealdade, e que na tua alma se desenvolvessem os belos sentimentos que mostravas aos dez anos.

Fazes hoje os teus vinte anos, e com eles realizas a ventura sonhada por teu pai: como filho, como irmão e como amigo dos teus amigos, és perfeito. O teu carácter nobre, a tua enternecedora dedicação e a tua altíssima lealdade. Não vi se alguém iguala estas tuas virtudes; eu melhor que ninguém as avalio.

Como artista tens ido além do que eu esperava, e vais depressa realizar o meu sonho de Arte, se à Arte dedicares toda a tua lealdade, todo o enternecimento da tua alma e toda a nobreza do teu carácter e do teu talento.

Carlos Reis”

 

Sagrara-o assim, cavaleiro-fidalgo na Arte da Pintura. Era como se o baptizasse em frente ao altar e lhe entregasse a espada para que pelejasse e fosse digno da Pátria, dos seus e de si mesmo.

O Pai resolvera ir ao Brasil. Desejo antigo contrariado por obstáculos que o ilustre Artista não conseguira remover, até ali. Ia e levava o filho, para que conhecesse rasgados horizontes e para que essas paragens se fossem habituando a conhecer, também, a obra do novel pintor, tão auspiciosamente nascida e tão brilhantemente continuada.

Dera imediatamente sinal de si, a imprensa brasileira. E dela que recolho as iniciais informações que aí ficam, sobre a visita: “Vai visitar a nossa cidade pela primeira vez, dizia o “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro [21 Abr. 1919], o Sr. Carlos Reis, Professor das Belas Artes de Lisboa. Em sua companhia virá um seu filho, também pintor de nomeada”. Assim fora. Abalara com o Pai, num abraço de dois irmãos, em busca de novos triunfos, a terras apartadas do Brasil.

Em 11 de Junho expunha no Gabinete Português de Leitura os seus trabalhos.

A crítica ia olhar de soslaio, receosa de habituais ludíbrios... Mas logo, em frente à obra, se deleitava, contemplativa. Do pai dissera, como era natural: — “Aqui não há que criticar, há que louvar. Carlos Reis está acima de toda a critica”.

Ao filho, não lhe apontavam deficiências técnicas. Estudavam-lhe o carácter e a obra. Achavam-no mais triste do que o pai, ao dizerem: — “É que João Reis atravessa exactamente a idade crítica das saudades amorosas, dos sonhos líricos, a idade em que todos se sentem inconscientemente dominados pela poesia, mesmo quando não são poetas”.

Debruçavam-se atentamente sobre a obra exposta, e conseguiam entendê-la, quando diziam: — “Tem colorido, tem perspectiva, tem poesia e tem arte. Enternece. Dá-nos saudades dos lindos poentes de Portugal que António Nobre tão saudosamente cantou e que João Reis tão amorosamente evoca na tela. É um notável paisagista já, esse moço pintor, equilibrado, sereno e também aristocratas [“O País”, 11 Jun. 1919].

Causara estranheza ao verem um artista tão novo e com tanto mérito.

Os vinte anos floresciam então, em sonhos de mais alta conquista. A sua mocidade era uma aleluia ruidosa de esperanças hora a hora renovadas, Achavam-no humano, sincero, verdadeiro.

“Uma rajada de talento que predestina a grandes e admiráveis feituras. E neste crescendo de trabalho, de inspiração e de êxito, mal poderemos descortinar o fastígio nesse artista que é do pai a mais fulgurante glória” [“O País” — Dia de Santa Clara —  8 Jul. 1919 — diziam.

Outros achavam-no “adoravelmente arrojado”, ao afirmarem: — “O jovem artista representa já uma individualidade. As suas telas têm cunho.

“Segue os mesmos processos de execução e afasta-se do que lhe foi mestre, pelo emprego das tintas, que distribui a jorros em combinações feéricas de luz, com uma arte toda sua, um atrevimento de arrojo, mas arrojo adorável” [“A Época”, 11 Jun. 1919].

Não se dispensavam de o observar em muitas minúcias...

“O Brasil Artístico” [2 Jun. 1919] chamava-lhe, apesar dos seus vinte anos, “artista consumado, tipo garboso de menestrel de balada enfarpelado em casimira do século XX, que assim mesmo nada perdia do seu ar sonhador, romântico, vibrátil, de quem deixa transparecer uma grande compreensão do sonho de arte”.

A alma brasileira abraçava em verdadeiro frémito de sincero júbilo, os dois artistas lusitanos. A imprensa não podia ser mais carinhosa.

No Palace-Teatro realizara-se uma linda festa, tocante de patriotismo, em que Portugal e Brasil se estreitavam na mesma adoração pela arte.

Os professores e alunos da Escola de Belas Artes, ofereciam-lhe também uma festa, com carácter regional, onde a poesia tinha sido nota de encantamento. Paulo Mazzuchelli moldara em bronze uma paleta que a mocidade escolar oferecia a Carlos Reis.

Os artistas brasileiros, na noite festiva de S. Pedro, dedicaram-lhes também uma festa; entre outros números curiosos, pelo pitoresco, onde a camaradagem intensamente palpitava, fora acesa uma enorme fogueira, havendo cantares e recitativos.

A Sociedade Propaganda de Belas Artes dedicara-lhes uma sessão solene, seguida dum elegante chá e dum concerto de músicas portuguesas e brasileiras.

O que foi essa triunfal viagem, pode, em síntese, saber-se pela pena de João Luso: — Pouco depois da sua chegada ao Rio, tornavam-se convidados obrigatórios das recepções oficiais, das festas mundanas, das sessões solenes das mais variadas associações. Figuravam na “lista do Catete”, no Clube dos Diários, no Joquei Clube; solicitava-se o seu comparecimento aos bailes, aos chás, às conferencias, e muitos dos assinantes da Ópera Municipal, disputavam a honra de os terem nos seus camarotes. O Liceu de Artes e Ofícios, como numerosas instituições, lhes consagraram cerimónias”.

Em 1920, com o retracto do Dr. Tomaz Ribeiro Colaço, que mais tarde tão apreciado era no estrangeiro, alcança a medalha de 2.ª classe (Pintura a Óleo) e um “carvão” Cabeça de estudo dá-lhe, no mesmo ano, a medalha de 3.ª classe.

Em Dezembro, realiza-se mais uma exposição — “Ar Livre”, à qual concorria também.

Recorto do “Diário de Notícias”[29-12-1921]: — “João Reis é hoje uma das mais seguras promessas, ou, para melhor, uma forte realidade da pintura nacional.

Tem direito também à nossa homenagem,e aqui lha prestamos muito sinceramente. As suas telas — Inverno, Manhã de Inverno, Tarde e Neblina, são coisas lindas que o pincel criou com destreza para encantamento dos nossos sentidos. Nele se afirma uma desenvoltura de processos, uma justeza de visão e um nobre sentido de arte que muitos, seguramente invejariam”.

Outra opinião, dizia [“A Monarquia” — Rebelo Betencourt — 29-12-11921]: — “João Reis, a quem há dias, numa crónica ao correr da pena, prestámos a nossa homenagem, muito moço, incrivelmente moço, como dizem os brasileiros, continua a ser uma das maiores esperanças da nossa Arte.

Norberto de Araújo[“Diário de Lisboa” — 20-12-1921] dissera, embora em análise que, sendo fugaz, tem o aspecto de estudo, o seguinte, sobre João Reis, encimando as suas palavras com o ajustado subtítulo: A Exposicão do Pintor João Reis — Comentários sobre o seu temperamento , a sua arte e sobre a sua originalidade.

“O atelier de João Reis é discreto. Possui um recolhimento digno dum artista e é tocado duma espiritualidade calma que ficaria bem aos que escrevem.

Está-se ali bem.

A arte de João Reis, tem seiva. Como nos passeios que se dão a certas horas sossegadas em florestas ou matas de arbustos,— vem-nos às narinas um olor, que não é perfume, mas é aroma, que só a palavra perfume nos dá ideia da etiqueta e faz pressupor logo a mentira química dos laboratórios, falsificando o espírito aromático das rosas com a humildade resignada dos gerânios que consentem em queimar-se, e atraiçoando a riqueza inocente que sobe do coração pequenino das violetas com a subserviência industrial das raízes do lírio, que se deixam pisar, para encher frascos de loção.

A exposição João Reis é interessante, tem pintura, tem paisagem, está vestida de sinceridade e dela se respira esse aroma a que me refiro, e que não pode confundir-se com o das essências elevadas ao quinto grau de requinte mentiroso.

Originalidade? Santíssimo Deus! Originalidade, sim. A originalidade, que é o encanto do talento nuns, ou a flor da intuição noutros, nasce com os artistas. Deixem-se os que não têm o poder criador de fazer novo e belo, de conspirar, de soluçar, de se pôr nos bicos dos pés. Não, porque não. A mulher não se conquista por cartas de amor. Conquista-se... Só isto: conquista-se! O segredo do poder conquistador não está no rosto, na figura, na expressão, na palavra, e muito menos na toilette. O segredo está na alma. O talento e originalidade do literato e do artista estão dentro deles, inatos, virgens, dominadores.

Reunam-se à roda de uma távola ou de uma roda de mármore chamada mesa de café vinte efebos, puxem da certidão de idade, reclamem o beijo da glória, que a glória não vem. Nem os conhece! Às vezes quando os cabelos — bom Deus! começam a ter fios brancos e a certidão de idade entra a vestir-se de amarelo velhinho, é que a glória chega pé ante pé trazendo nos lábios o seu beijo húmido como o destas amantes que só existem na nossa imaginação alucinada de criadores de sentimentos, adivinhadores de sentimentos, adivinhadores de corações.

João Reis, e a escola que ele segue, é- acusada de decadente, de trôpega. E todavia a originalidade encontram ali patente, clara, perfeita, só com a diferença de que se sabe vestir de descrição, e que tem o pudor da promiscuidade repugnante ao dos arraiais.

João Reis é para mim apenas um incidente. Ele serve neste intróito apenas para reforçar  a minha sinceríssima e altiva opinião de que só o talento e a beleza, quer servidos pelas formas primitivas do traço xilográfico, quer demonstrados pelas linhas irregulares do génio desgrenhado, estejam na mascara desiludida dos que nasceram quando os nossos pais ou estejam nó rosto esperançado dos que nasceram quando os nossos filhos; de que só a beleza e o poder original que vêm do talento têm o direito de ser a pedra de toque de uma época, a característica, o senhor, o guia do nosso período fecundante de arte.

O resto,— juro desta minha humilde mesa de jornalista cada vez mais apaixonada do seu recolhimento — o resto palavras, aldrabices, mentiras, impotências estilizadas, poeira de café-concerto, na qual se deixam envolver resignadas criaturas por cuja sinceridade a minha pena se habituou a ter respeito.

Ainda que eu fique só, afirmo que estamos atravessando uma ficção da Arte, servida por uma multidão de saltimbancos artífices, de guarda-roupa lantejoulado, novinho em folha, que ele seja.

João Reis apresenta no seu atelier 50 telas, de todas as épocas da sua curta vida de artista. As que representam a sua última maneira têm tudo o que o espírito moderno e livre exige, a cor, a vibração, o traço largo, a luz ampla, o desprezo pelo convencionalismo do tempo amaneirado. Mas a cor está no seu tom, a luz na sua hora e as coisas e o espírito das coisas no equilíbrio, justo termo que só se realiza pela sinceridade, pelo respeito do artista por si próprio, e é essa a virtude fundamental de quem quer produzir beleza.

Em João Reis distinguiu-se a originalidade discreta e prudente. As três demonstrações da pintura moderna são perfeitas. Que querem elas dizer?

Naturalmente que pintar como agora parece querer-se exigir que se pinte exclusivamente, é relativamente fácil. Naturalmente que os pintores da escola séria pintam sério pelo seu horror à truculência, mas que, querendo, fazem, vibrantemente a pintura que os outros desejariam fazer — e quem sabe lá se sempre consentem!

Será isto?

Entre as telas da exposição João Reis que se recomendam pela quantidade de emoção que inspiram indicamos o n.º 5, Campos da Lousã, que se nos figura uma representação muito espiritual da natureza, com a melancolia da distância coada por um realismo poético, adivinhando-se, do fundo dos casais, da superfície minúscula das coisas cristãs, no côncavo de um vale.

De uma maneira oposta em técnica lembra-nos de ter recebido uma emoção de melancolia salutar idêntica a esta num quadro de Eduardo Viana, da sua maneira séria que é a sua maneira mais original e casta, e que esteve na exposição do 2.º andar da Casa de Antiguidades. Temos uma admiração sincera por Eduardo Viana, que tem uma obra e uma originalidade, e, dissolve-se pouco em música de palavras ocas.

A exposição João Reis, que mereceria uma crítica tela por tela, até nas que são inferiores e só lá estão por documentação, deve ver-se. Merece ser vista por todos. Pelos intolerantes das montanhas e pelos intolerantes do pântano.

A nós deixou-nos uma boa impressão. João Reis é um rapaz novo, cheio de qualidades e de virtudes artísticas. E como é moço, como nós, em anos, em processos e em esperança, e como é velho, como nós também, em respeito pelos processos e pelo prestígio majestoso da arte, que não deve nunca sair do seu templo recolhido e santo — nós escrevemos este artigo com satisfação. Artigo de jornalismo, apenas, já devem ter visto”.

Por julgar interessante, recolho aqui, também, o que João Reis disse de si mesmo na data em que Norberto de Araújo traçava o que aí fica.

Ouçamo-lo numa entrevista[“O Século”, 21 Dez. 1921]:

“Meu pai, não me fez pintor, ensinou-me a estudar pintura e a compreender a natureza, mostrando-me o que ela tem de belo, incutindo-me no espírito a ideia tradicional da família de fazer tudo para engrandecer a minha Pátria, mostrando-me primeiro como ela é grande e como precisa de todos os seus filhos. E como se faz a uma criança que atinge a maior idade, emancipou-me, iniciando-me na vida com uma respeitável bagagem de ensinamentos; agora começo eu a estudar a pintura na obra tão portuguesa de meu pai e na dos seus mestres”.

Havia críticas, pelo que aí fica, que tomavam João Reis como um artista na posse plena dos segredos da arte. O artista “começava agora a entender a pintura na obra do Pai”. Essa obra era um luminoso livro aberto, onde João Reis juntava as sílabas para formar a palavra — perfeição!

Em Abril de 1922, abalava para a Argentina. O Pai fizera-o mais uma vez seu companheiro — seu irmão.

A “Revista Colonial”, dizia: [Abr. 1922] “Vai a caminho da Argentina o ilustre Artista Carlos Reis, que leva na bagagem verdadeiras preciosidades do seu pincel mágico, trabalhos de que fez exposição no seu atelier e que a crítica recebeu com rasgados e justos louvores. Acompanha-o seu filho João Reis, outro pintor distinto, e cujos quadros de traço firme e magistral execução profetizam um futuro brilhante”.

D. Emília de Sousa Costa, nas suas “Cartas” no “Jornal da Europa” [25 Jan. 1922] traçava: “João Reis, minha amiga, começou por onde a grande maioria dos seus conterrâneos, camaradas na Arte, não roçará sequer ao acabar. Nas suas primeiras telas, que eu contemplei com o embevecimento maternal da mulher e da amiga pela criança que, ao apresentar-nos os seus trabalhos admiráveis de frescura, de vigor, de inconfundível talento, quase nos pedia desculpa da sua ousadia, numa simplicidade infantil, de per si uma afirmação de real valor, João Reis revelava-se já um temperamento de artista ilustre, a que só faltava o estudo e a experiência para brilhar em todo o seu esplendor. Pois bem, não me iludiu a minha ternura, não errou a minha crença”.

A Argentina recebera-os num grande enlevamento artístico. Conhecendo a obra dos artistas pelo que a imprensa mundial dissera das Exposições de Lisboa, Porto e do Rio de Janeiro, esta recentemente realizada como um eco de vitória, Buenos Aires aguardada impacientemente a visita dos pintores lusitanos.

Aí ficam registadas algumas opiniões sobre João Reis — por ser o que especialmente interessa a este trabalho.

A revista “Plus Ultra” dissera: “Digno continuador de esta manera es João Reis, hijo del notable artista.

Sus cuadros El Molinero, Confidencia, Lavanderas, Gracinda, y sus retratos de los sehores Eduardo Andrade y J. Rezende, señorita F. C. y niño M. Sabugosa son obras bien dibujadas e de hermoso colorido en las que hay sinceridad y amor al terruño”.

Publicava-lhes os retratos. Reproduzia-lhes alguns dos quadros mais notáveis, dispensando-lhes páginas, no alto apreço.

O Conselho Nacional de Mulheres, associação culta, homenageara-os também.

O crítico de “La Prensa, [14 Jun. 1922] pronunciava-se assim sobre o artista: “De sus retratos — entre los que hay algunos muy buenos — notamos el del señor José Maria Cantilo, excelentemente dibujado, franco e seguro. Mucha modelación; sobriedad de colorido, pero mui rico de matices. Gracinda és um hermoso cuadro de figura de mujer joven. El fondo, és un paisage muy bien tocado, con mucha prespectiva y aire, armoniza admirablemente con la figura. És una obra graciosa e firme. Lavanderas. Escena muy bien combinada.  Cuadro muy luminoso. És una obra en la qual el artista ha estudiado concienzudamente, todos los detalles. Resulta un trabajo que dá una sensación acabada del natural”.

Cosecha de zapallos, Trigal, Confidencia e Rincon de aldea,— também merecem destaque como composições de grande atractivo e pelo colorido que sendo bem entoado, se torna equilibrado e suave”.

No regresso, passavam pelo Brasil. A imprensa da grande nação, salientava o facto, nestes termos:— “... Quando esses dois artistas estiveram no Rio, expondo os seus trabalhos, foram merecidamente festejados. Em Buenos Aires, Carlos Reis e João Reis conseguiram também grande sucesso, fazendo ficar ali conhecida a pintura portuguesa de hoje. A critica foi unânime em louvar os dois pintores”.

O ano de i923 abrira com uma significativa prova de apreço [6 Jan.1923].

Um grupo de artistas, senhoras, diplomatas e jornalistas, oferecia ao Pai e ao Filho um almoço de homenagem.

Em Abril realizava-se em Lisboa o certame anual das Belas Artes.

O Estado comprara-lhe um quadro — a Maria dos Anjos.

O “Diário de Notícias [5 Abr. 1923], depois de lhe destacar os três retratos expostos, dizia: — “João Reis é um moço de mérito notável, mas que — estamos convencidos,— graças às suas qualidades pessoais e aos conselhos de seu ilustre Pai, será um nome de respeito e admiração quando tiver atingido a sua fase definitiva, a plena maturação dos seus processos”.

Outro crítico afirmava [“Correio da Manhã”, 9 Abr. 1923]: — “João Reis continua a honrar a dinastia de artistas a que pertence; os seus retratos, sóbrios de cor, de pincelada segura, de parecença flagrante, sem se igualarem a fotografias, bem como a Maria dos Anjos, cabeça adquirida para o Museu, revelam as robustas qualidades do seu estofo de artista”.

Expunha em Janeiro, no Porto, no hall da Secretaria da Santa Casa da Misericórdia. Pelas notas que encontrei, deve ter sido esta exposição uma das de maior êxito material, pois são muitas as referências a quadros vendidos.

Numa pequena notícia, após a abertura do certame, que o “Primeiro de Janeiro” publica, vêm como vendidos, 13 quadros. A imprensa, como era costume, criava à volta do artista, um ambiente de simpatia, certamente merecido.

O “Jornal da Noite [15 Jan. 1924], dizia: «O pintor ilustre que, neste momento, expõe os seus quadros no átrio da Misericórdia, é uma mocidade florescente que vai fazendo a sua carreira com brilho, seguindo uma tradição de arte que é das mais nobres e das mais altas na pintura portuguesa.

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Ele compreende que a cor é, como a interpretou Dubufe — “O perfume visível das coisas”.

É a sua pateta em que os tons alegres parecem ter pedido ao sol a sua reverberação fremente, é cheia de vigor, de graça, de harmonia clara e poderosa.

O que mais surpreende neste artista de vinte e quatro anos, é a sua originalidade, dentro da escola de paisagem que abraçou e em que a sua índole individual começa a mostrar-se já triunfante”.

Guedes de Oliveira dissera na sua “Tribuna” do Janeiro [15 Jan. 1924]:

João Reis trouxe-nos nos seus quadros uma rutilante primavera em pleno inverno torrencial. Como seu Pai e seu Mestre, de cuja alma o diríamos um desdobramento, João Reis é, acima de tudo, um enamorado da Cor.

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"A sua paleta, como os seus pulmões, se sente bem ao ar livre do espaço livre, para neles absorver a alegria, esplendor, vida, mocidade,— esta mocidade sempre renovada nas primaveras, e sempre enfraquecida nos outonos, para voltar a irradiar, a cantar, a florir em formas e em cores que são sempre novas, sempre variadas, e depois de tudo — sempre as mesmas!

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Para um artista de vinte e poucos anos... onde há outros assim? Começa por onde muitos desejariam acabar...”.

Era como se não ouvisse os clamores de exaltação que se erguiam à volta do seu nome, dando-lhe prestígio. Esquecera-se dessa razão para se lembrar constantemente de outra mais imperiosa: a responsabilidade que dia a dia ia abrangendo a sua fama de artista.

Cada exposição, cada triunfo. São sempre caros, bem mais caros do que parecem, os triunfos que se alcançam com muito labor e com honra igual ao esforço. Não o esquecia o artista. Era como se a experiência lhe ensinasse que só com amargura do trabalho, com honesta persistência se consegue chegar à finalidade sonhada.

Novo certame ia surgir.

Voltava lá com a sua braçada de quadros, pedaços da sua vida ofertados à contemplação das multidões onde se anicham, a-par-da pureza dos honestos, os defeituosos sem coragem de abertamente confessarem despeitos tenebrosos das suas ruins invejas...

Viera Dezembro e, com ele, a Exposição “Ar Livre” — no Salão Bobone.

A. P., no “Diário de Lisboa”, abrira assim a sua crítica [Artur Portela, 1924]:

“A árvore “Ar livre”, como lhe chamei há tempos, tronco glorioso, onde palpita o divino sangue da criação — Carlos Reis — e braçados altos, pujantes, que desabrocham estreias em vez de flores — os discípulos — parece de ano para ano transfigurar-se, embeber- se em luz, crescer em sombras, dar auroras de aromas, fazer o sacrifício das seivas, para atingir desconhecidos céus de beleza, mais belos que o nosso, onde o ritmo dos planetas tem a grandeza dos signos imperecíveis”.

Depois da citação e apreciação a vários trabalhos do grupo, diz de João Reis

“João Reis é a grande revelação deste ano. Todos os seus quadros, onde há alguns que gritam extraordinário, criação, beleza a jorros, provam que este artista, quando trabalha para si e não para o público, atinge rapidamente escaleiras tão altas de beleza, que não é demais colocá-lo ao lado do Pai. João Reis não andou, voou, para muito mais alto, muito longe do passado. Pena é que esta leve crónica se tenha de encurtar, porque gostaria de me deter sobre os seus trabalhos”.

O retracto do diplomata D. José Maria Cantilo dá-lhe a medalha de 1.ª classe (Pintura a Óleo).

Matos Sequeira [“O Mundo”, 10 Jan. 1925] dizia: “A exposição feita pelo pintor João Reis, no Salão Bobone, é propriamente, na maioria dos quadros expostos, uma exposição de atelier. Abundam os estudos, pinturas que são trechos de quadros, com uma lista estreita de céu sobre um dorso de serras, manchas impassivas para ensaios de largas composições.

João Reis, como paisagista, tem inegáveis qualidades e revela o mestre e o sangue, no processo e na ideologia. Tem quadros que dir-se-iam réplicas dos quadros de Carlos Reis; quase todos os que nos dão aspectos da Lousã, por exemplo. São os mesmos nevoeiros, as mesmas montanhas, encobertas e mato verduengo, esfumadas nos cumes.

Os quadros de Royat parecem-me de maior interesse mesmo além da estranheza da paisagem que, mais leve do que os cumeiros alpestres da Lousã, nos impressiona com a vantagem de novas sensações”.

Em Dezembro expunha no Pôrto [“Comércio do Porto, 9 Dez. 1925].

A imprensa, entre outras, louvara “a famosa tela Tranquilidade”, “o notável quadro A missa das Almas”, “as pitorescas paisagens da Lousã e da Figueira da Foz”, “as marinhas onde havia luz, movimento, transparência,— condições realizadas belissimamente nos quadros expostos”.

Fora sozinho. No certame, estranhos, apenas dois quadros. Um da irmã, D. Maria Luísa; outro do Mestre, em homenagem mais de discípulo do que de filho. Colocara esse trabalho em destacado lugar, acarinhado pelas dobras assetinadas de damascos.

O público acorrera a ver “o conjunto da exposição, que oferecia o mais agradável aspecto. Ao primeiro relance notava-se que tudo quanto ali existia era produto dum talento artístico, indubitável, duma actividade bem orientada, duma legítima aspiração, de honrar a arte portuguesas” [“Comércio do Porto, 2 Dez. 1925].

Concorrera, também, à Exposição Internacional do Rio de Janeiro, onde fora premiado com uma medalha de prata.

O Brasil tentara o novamente. Eram as amizades que ali tinha deixado, artistas, jornalistas, escritores, homens e mulheres do pensamento brasileiro, lapidadores ilustres da língua eterna que une as duas pátrias, que lhe acenavam com as suas saudades e os desejos fervorosos de novamente lhe contemplarem a obra na gloriosa trajectória que seguia imperturbavelmente.

Resolvera ir, sim.

Abalaria, novamente, em demanda do Brasil. Acompanhava-o a Esposa, e levava na bagagem artística, ao lado dos seus quadros, trabalhos do Mestre e Pai e de sua irmã Maria Luísa.

Ouçamos algumas das vozes que saudaram o artista, na hora da partida para essa viagem:

“João Reis, filho e continuador de Mestre Carlos Reis, afirmação esplêndida duma dinastia insigne de pintores, parte no dia 22 para o Brasil, onde vai expor na cidade de S. Paulo os seus últimos trabalhos e muitas obras primas de seu Pai”.

O artista quisera que vissem a obra que o acompanhava a terras da América. Fizera convites. A crítica comparecera, e dissera [“O Dia”, 13 Abr. 1926]: “Na verdade, o que esse rapaz que não terá trinta anos, consegue nas suas telas, não tem só encanto, tem prodígios de técnica e talento”.

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“Quem assim pinta, quem assim honra as tradições paternas, quem assim trabalha com fé e com verdade, bem merece o assinalado êxito que certamente o espera e que do coração lhe ambicionamos”.

Outros diziam [“Diário de Notícias”, 14 Abr. 1926]: “João Reis expôs ontem no seu atelier, e para as pessoas de sua intimidade, os quadros que leva ao Brasil, para onde parte no próximo dia 22. Quem conhece a colónia portuguesa no Brasil, e os quadros de João Reis, facilmente augura ao moço artista um êxito completo. É a terra portuguesa que ele vai expor aos olhos enlevados dos nossos compatriotas, ora cheia de luz e de graça, florida de sonho e doirada de sol, ora melancólica e doce, mergulhada nos sonhos do entardecer”.

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O português que lá longe recorda com saudade o cantinho em que nasceu há-de, ao fitar esses quadros, sentir-se mais perto da sua terra, tão flagrantemente o artista reproduziu nas telas que ontem vimos — fulgurantes de claridades aconchegadas nas primeiras névoas, telas dum portuguesismo tão completo, de um tão consolador nacionalismo, que o nosso coração se sente bem no meio delas”.

Partira, Atlântico fora, na luminosa primavera de 1926,

Abril desabrochara na luz cantante dos seus dias plenos de claridade, juntando à aleluia da cor que invadia a terra e o mar, o sonho do artista lusitano.

Chegara ao Rio, para partir. S. Paulo chamava-o na tentação duma promessa antiga. A imprensa, que guardava de João Reis a forte impressão do outro certame, lamentava que o artista não expusesse no Rio de Janeiro, dizendo [“A Noite”, Rio de Janeiro: “João Reis, pintor de raça, que já conta nas belas artes os mais seguros triunfos, vai oferecer à admiração de S. Paulo, — cidade que se ufana de possuir grandes tesouros artísticos, os seus mais recentes trabalhos.

“O Rio deve lamentar-se de perder a feliz oportunidade de admirar o grande pintor”.