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Justamente se ensoberbece a nobre vila
de Torres Novas de ser pátria dum dos mais notáveis mestres da arte de pintura
portuguesa contemporâneo Carlos Reis.
Nasceu Carlos António Rodrigues dos
Reis a 21 de Fevereiro de 1863 na Vila de Torres Novas, na casa que seus pais possuíam na
calçada do Amparo, que do sul faz esquina para a travessa do Prior, pertencente à
freguesia de Santiago, em cujo matriz foi baptizado a 9 de Março do mesmo ano, conforme
consta do respectivo assento, lavrado sob o n.º 23 a fls. 12 do L.º n.º 24.
Filho do conceituado cirurgião do
partido municipal Dr. João Rodrigues dos Reis e de sua mulher D. Maria de Jesus Nazaré
Reis, ele natural do lugar da Mata e ela do Pedrógão, deste concelho, foram seus avós
paternos João Rodrigues Cabeleira, proprietário e Joana do Carmo dos Reis Cabeleira,
maternos Dr. Carlos António dos Reis, natural do Chancelaria, deste concelho e médico em
Leiria, e D. Maria de Jesus Nazaré.
Aluno desde as primeiras letras da
escola primária desta vila, e feito o seu exame de instrução primária, passou a
frequentar o Colégio do Padre Joaquim Correia do Silva, que funcionava na casa da
Enfermaria a Valverde, onde se ensinavam as seguintes disciplinas: português, francês,
latim, matemática e desenho.
Como ao seu espírito insubmisso não
quadrasse o rigor dos termos algébricos, nem a monotonia das fastidiosas declinações
latinas, pois já a arte começava de o enamorar, resolveu seu pai destiná-lo à carreira
comercial, pelo que em 1876 seguiu para Lisboa, a despeito das lágrimas saudosas de sua
santa mãe, a empregar-se no tabacaria do seu parente Fortunato Augusto dos Neves, a assaz
conhecida Tabacaria Neves, do Rossio.
Aí começou logo o seu génio
artístico a manifestar-se, pois todos os momentos que o trabalho do balcão lhe deixava
livres os ocupava desenhando figuras e esboços de tal forma reveladores dum eleito da
arte, que alguns fregueses e amigos da casa se empenharam junto do patrão para que ao
caixeiro artista fosse permitida a frequência do Escola de Belas Artes.
O pai, ainda amuado com o filho,
opôs-se a tal intento, pelo que Fortunato das Neves veio a Torres Novas e de tal maneira
advogou a causa do futuro mestre, que conseguiu demover a oposição paterna, em
consequência do que Carlos Reis se matriculou no ano de 1881 no Escola de Belas Artes de
Lisboa, onde teve como professores Alberto Nunes e Simões de Almeida em desenho
preparatório, Miguei Ângelo Lupi na aula de modelo vivo, e na de pintura Silva Porto, do
qual foi um dos mais directos discípulos.
Aluno do 2.º ano da Academia,
achava-se um dia o moço artista na Tapada da Ajuda pintando um quadro, quando sucedeu
passar junto dele o príncipe real D. Carlos que, como artista que também era, parou a
admirar o trabalho do rapaz, que achou deveras apreciável.
Travando com ele conversa, o Duque de
Bragança inquiriu das suas condições de vida, ao que ele respondeu que era de Torres
Novas e que tinha o mesmo nome e idade de Sua Alteza.
Gostou o príncipe do resposta, pelo
que lhe prometeu que à custa dele ficava a sua educação artística.
No dia seguinte o General Sequeira, de
cavalaria, compareceu na Tabacaria Neves pedindo licença para que Carlos Reis fosse à
presença do príncipe real. Procurou ele escusar-se alegando não ter fato próprio para
ir ao Paço, ao que o general obtemperou que Sua Alteza pretendia falar com o jovem
estudante de Belas Artes e não com a sua indumentária. Ainda assim pretendeu furtar-se
ao convite, pelo que se tornou preciso que o patrão impusesse a sua autoridade,
ordenando-lhe que fosse ao Paço da Ajuda.
Compareceu Carlos Reis ante D. Carlos
que o tratou com a sua costumada afabilidade para com os artistas e, levando-o à
cavalariça, lhe mostrou determinado cavalo de sua estimação, para que o reproduzisse
fielmente. Como o futuro mestre modestamente dissesse que não tinha os meios necessários
para esse fim, o príncipe prontamente lhe mandou fornecer quatro libras para esse efeito.
Satisfeito com a obra do novel artista, lhe estabeleceu desde logo essas quatro libras por
mesada que sempre manteve não só durante o seu estágio em Paris, mas depois do seu
regresso a Portugal até a nomeação de professor da Escola de Belas Artes de Lisboa.
Terminando o curso da dita Escola em
1889, concorreu a uma bolsa de estudo de 200$00, que brilhantemente obteve, pelo que, como
pensionista do Estado, seguiu imediatamente para Paris, onde permaneceu até princípios
de 1896.
Na capital francesa frequentou
temporariamente a Escola de Belas Artes, onde entrou por concurso, sendo classificado em
terceiro lugar entre quatrocentos e tantos concorrentes a oitenta lugares de alunos.
Aí frequentou com grande assiduidade e
notável aplicação os ateliers dos mais considerados mestres, que em muito
apreço tinham as suas excepcionais qualidades de artista, tais como o famigerado
retratista Bonnat e o grande mestre de pintura histórica Joseph Blanc, da Academia
Colarrossi.
Em 1896 regressava a Portugal e logo
concorria ao lugar de professor do Escola de Belas Artes de Lisboa, vago pelo falecimento,
em 1 de Junho de 1893, do professor António Carvalho do Silva Porto, sendo seus
competidores António Monteiro Ramalho e Artur Melo. Como Ramalho desistisse, o júri
entre os dois concorrentes que se defrontavam deu a preferência a Carlos Reis, pelo que
tomou posse da cadeira de paisagem no ano de 1897.
Ao regressar de Paris a Lisboa
trazia Carlos Reis o plano grandioso de fixar em vinte ou trinta grandes quadros a vida do
camponês, transportando para a tela as suas alegrias, as suas mágoas, as suas paixões e
os seus vícios, mas as dificuldades do meio não lhe permitiram a realização desse
vasto plano pictural, epopeia rústica, onde o artista, formalmente submisso à sua
educação naturalista, não deixaria de ceder ao temperamento que Deus lhe deu, e da
observação (na aparência impessoal, desinteressada e exacta) da natureza, lhe faz
tirar, em cada um dos seus grandes quadros, outros tantos hinos à saúde, à força, à
alegria da vida, ao trabalho feliz, ao amor são e ingénuo, ao sol criador e à luz
bem-dita.[O Pintor Carlos Reis e as modas em pintura por Agostinho
de Campos, p. 17].
Muito deve a arte portuguesa ao grande
mestre Carlos Reis, que com dedicação extraordinária e competência incontestada, regeu
a cadeira que em boa hora lhe foi confiada, formando uma plêiade de artistas cujos nomes
são já sobejamente conhecidos, como D. Adelaide de Lima Cruz, alma de artista
multiforme; Falcão Trigoso, o inspirado pintor-poeta da paisagem algarvia; António
Saúde, originalíssimo intérprete das manhãs brumosas; Alves Cardoso, retratista e
pintor decorativo já consagrado; José Campos, delicioso paisagista; Frederico Aires, o
excelente pintor de marinhas; Armando Lucena e Calderom, artistas tão inteligentes e
apreciados, conforme os classificou o Dr. Agostinho de Campos...
Ponhamos ainda em merecido relevo seus
filhos João Reis e D. Maria Luísa Reis, verdadeiros prodígios de precocidade na arte
que hoje cultivam como artistas consumados mercê das lições paternas.
Cada um dos discípulos de Carlos
Reis, diz ainda o Dr. Agostinho de Campos, tem o seu cunho pessoal, inconfundível e
livremente expandido de dentro dos seus temperamentos diferenciados. O mestre formou-os,
guiou-os, mas não lhes cortou as asas, impondo-lhes a sua maneira de ver a natureza, de
organizar a paleta e dirigir o pincel.
Foi Carlos Reis o fundador do grupo
Ar Livre, ao qual sucedeu a célebre Sociedade Silva Porto, cujas
exposições anuais testemunham o valor artístico dos seus componentes, que assim honram
o mestre.
Como Lisboa não possuía um palácio
onde pudessem realizar-se exposições de arte, um grupo de artistas, a cuja frente se
achava Carlos Reis, levou a efeito a construção do belo edifício onde se acha instalado
a Sociedade Nacional de Belas Artes na
rua Barata Salgueiro, onde se realizam exposições e festas de arte, sociedade de que ele
foi fundador em 1902, e que veio continuar o Grémio
Artístico que nela se fundiu, sendo Carlos Reis um dos vogais do sua primeira
direcção.
Quando o jornal parisiense Le
Figaro pretendeu homenagear os diversos Chefes de Estado do Europa com um número
especial, ao grande pintor português Carlos Reis foi confiado a missão de pintar o
retrato de El-Rei D. Carlos,
trabalho que foi alvo dos mais rasgados elogios.
Durante vários anos exerceu o cargo de
Director do Museu Nacional de Belas Artes, às Janelas Verdes, até que desdobrado este
pela reforma das Belas Artes de 1911 em Museu Nacional de Arte Antiga e Museu Nacional de
Arte Contemporânea, foi em Junho desse ano Carlos Reis nomeado Director deste último,
cuja esplêndida organização lhe foi incumbida, e que deixou ao fim de três anos.
O seu último acto no Direcção do
Museu das Janelas Verdes foi a organização da sala dos faianças e vidros, inaugurada
aquando do Congresso de Turismo em Maio de 1911.
À sua elevada categoria de artista e
de professor deveu Carlos Reis a nomeação de secretário do júri de admissão às
exposições do Grémio Artístico de 1896 e
1897; vogal nos de 1898 e 1899, bem como nas do Sociedade Nacional de Belas Artes de 1905,
1906, 1909 e 1913.
Nomeado ainda para a de 1914, pediu
escusa do cargo e foi substituído por Alves Cardoso.
Da direcção do Grémio Artístico fez parte nos anos de 1897, 1898 e 1899, bem como
da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1903, 1909, 1910 e 1911.
Artista consagrado desde muito, tem
concorrido com os seus trabalhos notáveis a diversas exposições tanto nacionais como
estrangeiras, pelo que lhe foram concedidas as seguintes recompensas, que nós saibamos:
Medalha de honra do Sociedade Nacional
de Belas Artes, nos exposições de 1906 (óleo)
e de 1920 (óleo), de 1.ª, classe na Exposição de 1902 (óleo); medalha de oiro no
Exposição Internacional de Dresde de 1897 e no Exposição Internacional de Barcelona;
medalha de 1.ª classe no Exposição do Rio de Janeiro de 1924 e Grand Prix no Salon do Rio de Janeiro, etc.
É sócio honorário do Sociedade
Nacional de Belas Artes, e orgulha-se de não possuir venera alguma, apesar de haver sido
proposto para o grau de Comendador do Ordem de Santiago, distinção que não aceitou.
Membro do Academia de Belas Artes de
Lisboa, quando esta foi dissolvida e substituída por outra, recusou o lugar para que foi
eleito por unanimidade um ano após a sua fundação.
Atingido pela lei inexorável do
limite de idade, houve de jubilar-se em 1933, sendo nessa ocasião nomeado professor
honorário da Escola de Belas Artes de Lisboa.
No dia 22 de Maio de 1925 os seus
directos discípulos e inúmeros admiradores prestaram uma merecida homenagem ao Mestre,
inaugurando no Sociedade Nacional de Belas Artes uma
exposição dos seus principais trabalhos, com uma sessão solene em que o conceituado
professor Dr. Agostinho de Campos fez uma notável palestra, publicado em folheto sob o
título CARLOS REIS e as modas em
pintura (Livrarias Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1925)
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Para me guiar na organização duma
lista tão completa quanto possível desses trabalhos, pedi a João Reis (e é impossível
escrever de Carlos Reis sem acudir ao bico da pena o continuador do seu nome e da sua
fama) que me fornecesse tudo quanto porventura tivesse coligido sobre os críticas ou
simples referências vindas no Imprensa. Mas eu, que já antevia quão pesada seria a
tarefa de que levianamente me incumbira, fiquei positivamente atordoado quando me chegaram
às mãos, pacientemente compilados pela sua filial devoção, nada menos de 18 grossos
volumes cheios de recortes de ilustrações e jornais portugueses, brasileiros,
argentinos, espanhóis, franceses, alemães, suíços e ingleses...
Desses recortes, os primeiros que
encontro referem-se a uma exposição em 1887 no qual Carlos Reis apresentou o
retracto da Snr.ª D. Guilhermina Roxo.
Eu estava em África havia poucos meses quando recebi carta do jovem estudante de Belas
Artes, dizendo-me que ia expor esse retracto que ele esperava começasse a dar-lhe nome,
por ser a retractada muito conhecida em Lisboa. Efectivamente a crítica foi-lhe
francamente favorável, dedicando-lhe artigos elogiosos os conhecidos publicistas Lino do
Assunção nas Novidades e Zacarias de Aça no Correio da Manhã.
O mais curioso é que o primeiro diz que Carlos Reis quando pinta bem é quando foge
da Academia, quando se liberta da vista inquisitorial dos lentes, da sua influência
pedante e, sem peias nem observações, se entrega todo à impetuosidade do seu
talento. Isto é: por mais incrível que isto hoje pareça, o que é certo é que
Carlos Reis já passou por revolucionário ...
Essa exposição não foi todavia a
primeira a que concorreu. Sei isso porque a algumas assisti eu antes de ir para África, e
também porque o diz Zacarias de Aça no mesmo artigo: Quando aqui me ocupei duns
quadrinhos de Carlos Reis que vi na Exposição do Grupo do Leão, disse que
eram a aurora dum esplêndido dia. Pois bem, fui profeta no minha terra porque o
dia não tardou a raiar, e esplêndido, como eu prognosticara.
Em Dezembro do mesmo ano expôs no
Grupo do Leão o Caminho da fonte, a
que O Dia chamava uma brilhante
promessa.
De volta de Paris trouxe, entre outros
menos importantes, os célebres quadros Manhã de
Clamart e Pôr do Sol, que mais tarde foram
perdidos, como já se disse, num naufrágio. Desse ano de 1895 data verdadeiramente a sua
consagração definitiva como pintor de génio. No ano seguinte na exposição do
Grémio Artístico, dizia o
Diário Popular que Carlos Reis ocupava o lugar proeminente, com os seus
quadros Ao cair do tarde, Domingo de primeira
comunhão, Vacas no pastagem e Retracto de minha
mãe. E todavia nessa mesma exposição figuravam trabalhos de Malhôa, Salgado e
outros.
Alguns críticos lamentaram que não se
dedicasse antes à paisagem de Portugal, o que creio lhe seria bastante difícil pintando
em França; mas esse defeito depressa desapareceu, e poucos paisagistas conseguiram ver,
sentir e reproduzir com mais verdade e maior emoção o campo, o sol e o ar de Portugal,
como ele o tem feito e continua fazendo. No Correio Nacional de 8 de Maio de
1896, escreveu Franco Frazão (depois Conde de Penha Garcia) um brilhante e entusiástico
artigo sobre Carlos Reis, que lamento não poder transcrever na íntegra pois isso me
levaria muito longe; mas não resisto a copiar da já citado Conferência de Agostinho
Campos (O pintor Carlos Reis e as modos em pintura) o seguinte excerto desse artigo:
Os seus quadros duma factura largo e vigorosa, não acusam esforço; vê-se neles
claramente que o poder de execução e a faculdade de concepção existem no artista
perfeitamente equilibrados; adivinha-se a espontaneidade, a abundância de dotes naturais.
A cultura do espírito, a perfeição da educação profissional, transparecem sem dúvida
nos telas de Carlos Reis; mas predominam sempre as qualidades naturais, de preferência
às manifestações do talento académico, ou do estudo clássico das escolas. Devido à
convivência e às lições de Silva Porto, bem cedo a poesia da vida campestre atraiu o
espírito de Carlos Reis. Se, porém, a paisagem ou, melhor, os aspectos da vida do campo
constituem o seu assunto preferido, nem por isso o retracto, as cenas de interior e
vários outros géneros de pintura deixam de ser por ele cultivados com manifesta
superioridade. Apologista do pintura de ar livre, pertence à falange ilustrado por
Lepage, Millet, d'Aubigny, Jules Breton, Silva Porto e muitos outros.
Por essa época Carlos Reis mandou a
Berlim um desses grandes quadros, Pôr do Sol, e
a Ilustração Alemã referia-se ao seu autor bem como a Columbano, como a dois artistas completamente originais.
É evidente que não posso transcrever,
nem sequer resumir os 18 volumes de recortes que João Reis me forneceu, nem praticamente
seria possível reproduzir, descrever, e apreciar tudo quanto o Mestre produziu até hoje.
Haveria para isso graves impedimentos de vária ordem, como os de natureza orçamental e,
não menos importantes, os que implicariam a capacidade de tolerância do leitor mais
benévolo.
Digamos entretanto que nas exposições
efectuadas nos anos seguintes, Carlos Reis foi merecendo da crítica apreciações sempre
mais elogiosas e entusiásticas, distinguindo-se O Popular pela pena do
crítico que assinava Um ignorado,
Novidades pela de H. de V., Tarde pela de Cassio, A
Arte em artigos sem assinatura, Mala da Europa pela pena de Abel
Botelho, etc.
Em 1898 pintou a bela paisagem Nas margens do Almonda.
Em Janeiro de 1900 a Escola de Belas
Artes expôs os quadros que iam ser enviados à Exposição de Paris. Havia-os de D.
Carlos, de Columbano, Malhôa, Salgado, Condeixa, Sousa Pinto, etc. Acerca dessa
exposição dizia o Correio Nacional: Quem se apresenta por modo
verdadeiramente notável é o ilustre paisagista Carlos Reis, cujas obras serão sem
dúvida o great event da nossa exposição
artística em Paris.
Por ocasião dessa exposição
publicou-se em Paris a revista Le Portugal à l'Exposition onde se lê:
M. C. Reis est,
dit-on, un indépendant, ennemi des écoles et des procédés. 11 ne reconnait d'autres
maïtres que sa propre organisation et la vérité. Nous
ne sovons si ce sont ces bons príncipes qui lui ont créé des obstacles et des
difficultés, ce sont eux cependant qui 1'ont conduit à nous montrer, dans l'Exposition
actuelle, des toiles excellentes. Outre les tableaux exposés por lui dans les salles du
Grand Palais, il faut aller voir les huit magnifiques toiles qui décorent la section
portugaise aux armées de terre et de mer et qui sont dues, à son habile pinceau.
Loeuvre de M. Carlos Reis comprend des portraits et des paysages. Deux portraits de
la mère de cet artiste et un outre, en pied, de Mlle.
M. M. Les deux premiers sont traités avec cet amour du fils qui emploie toute la
magie de son pinceau pour perpétuer des traits chéris. Dans le portrait de Mlle. M. M., M. Carlos Reis s'applique à être
1'interprète de la jeunesse, et il nous semble vraiment que 1'on ne peut facilement jeter
sur une toile plus d'élégance dans 1'attitude, plus de parcimonie et d'harmonie dans la
couleur. Mais M. C. Reis, quelque distingue déjà comme artiste, est encore assez jeune
pour que son talent de portraitiste puisse encore s'accroitre, car comme paysagiste son
talent est indiscutable. Le tableau Matin à
Clamart' serait à lui seul suffisant pour établir la réputation de son
auteur; il est bon toutefois de le mettre en regard de ses autres oeuvres: Coucher de soleil, L'Automne et
Dans la prairie. Les effluves de la Nature se détachent sur ces belles toiles et
touchent 1'âme de qui les contemple. M. Reis a une prédilection marquée pour les heures
extrèmes de la journée, et sa palette colorée et changeante possède le pouvoir magique
soit de jeter dans notre âme les tristesses du soir, comme dans le Coucher de Soleii, soit, comme dans le Matin à Clamart, d'éveiller en nous des idées
poétiquement charmantes que nous suggère une matinée que 1'on ne saurait rêver ni plus
suave ni plus transparente ni plus lumineuse.
Nesse mesmo ano, foi Carlos Reis
convidado a mandar a Dresde em 1897 o justamente famoso quadro Retrato de Minha Mãe, que se achava então exposto
em Paris e ao qual no dito convite se prometia um
lugar privilegiado. A propósito desse retracto, de cujo técnica impecável, de cujo
delicadeza de toque, da ternura com que foi pintado, tantos críticos falaram, alguma
coisa posso eu contar que certifica a sua inteira semelhança com o modelo que muito bem
conheci. A história é simples: O quadro estava colocado numa sala da residência de
Carlos Reis em Torres Novas quando chegou uma mulherzinha que se dirigiu ao retracto
perguntando-lhe com muito interesse se estava
melhorzinha ...
Não resisto a contar outro caso
parecido, acontecido há pouco tempo comigo mesmo. O conhecido quadro de Mestre Carlos
Reis A talha vidrada, por este oferecida ao
Museu Municipal de Torres Novas, tinha sido retirado da moldura à espera de ser
envernizado. Achava-se encostado à parede num gabinete interior, quando entrou no sala de
leitura da biblioteca anexa um frequentador da mesma; quando passava viu o quadro,
afirmou-se um pouco, e disse-me: Tem graça, julguei que era um quadro que ali
estava. O que ele julgou foi que era uma mulher de carne e osso.
Neste ano de 1900, o artigo que se me
depara no Diário da Tarde, e que eu mais lamento não o poder transcrever, é
um de Justino de Montalvão em que o distinto escritor diz, entre muitos outras coisas
justas e poéticas, que «o sol do nosso país de encanto noivou com esta alma de pintor.
E desse maravilhoso noivado uma resplandecente eflorescência desabrochou nas suas
telas.
Numa exposição do S.N.B.A. em 1902,
como para responder à observação antigo acerca da paisagem de França, o conhecido
crítico de Arte, Dr. José de Figueiredo, dizia no Dia: Carlos
Reis, que já tinha dado provas bastas de ser artista de grande valor, individual e
íntegro, afirma-se nestas suas paisagens como profundamente português. Tendo-se
compenetrado e embebido, nas suas demorados excursões pelo campo, dos nossos céus
quentes e dos nossos fundos, menos vagos e incertos do que os franceses, mas mais puros e
luminosos, a sua factura tornou-se mais sólida, sem nada perder da sua antiga e
encantadora fluidez. Sincera e verdadeiramente poeta, sentindo a natureza e
identificando-se maravilhosamente com ela, a justeza dos suas paisagens bretãs e as
reminiscências que delas, ainda não há muito, deixava entrever, não eram portanto
prova-o bem agora com estes trabalhos últimos impotência, mas poder.
Também em 1902 pintou em Torres Novas
O Moinho dos
Gafos, que se encontra no Museu do Rio de Janeiro.
Na Exposição da mesma S.N.B.A. em
1903 aparece também Carlos Reis e no Dia lê-se: ...Os dois gloriosos
aqui, os Mestres da sala dos Mestres, são Carlos Reis e José Malhôa. Nesse mesmo
ano Carlos Reis pinta o grande quadro representando a glorificação dos descobrimentos
portugueses, com que foi decorado uma das salas do Museu de Artilharia.
O ano seguinte foi assinalado pelo
célebre retracto do Rei D. Carlos, que foi
exposto em Paris em 1905 e se encontra hoje no Palácio de Vila Viçosa.
A propósito desse quadro dizia O
Diário Ilustrado de 29 de Fevereiro de 1904: A crítica nem sempre tem sido
benévola com esse artista que é indubitavelmente um pintor de raça. A razão é
simples: Carlos Reis põe acima de tudo a sua consciência profissional e por nenhum modo
transige com as côteries e com as sociedades de elogio mútuo. Sensível às
más vontades, aos azedumes e às frechadas dos que fazem vida do maledicência temperada
com os condimentos duma literatura muito apreciado nos cafés, concentrou-se e esperou a
sua hora de completa justiça que tinha fatalmente de vir, visto como não há críticos
tendenciosos que tenham jeitos de anular o talento naquele que o possui. O retracto de
El-Rei, a última tela que o artista expôs no seu atelier, tem causado verdadeira
admiração nos entendidos, sendo unânime a homenagem prestado a Carlos Reis pela
Imprensa e por todos os que têm contemplado essa verdadeira obra de mestre.
No Diário de Notícias A. Lobo
de Ávila publicou um artigo donde extractamos os seguintes períodos: A
figura de El-Rei está desenhada com firmeza e primorosamente pintado. O toque seguro e
franco modela o busto com frescura. É a medida do bom acabamento, que não deixa
reticências de forma e de cor, para os olhos do observador preencherem com dificuldade,
mas que nada tem da pintura tourmentée ou
miúdinha. É o caso de dizer: in media virtus. Num
escôrço hábil, inteligente, o pintor colheu bem as linhas mais propícias do seu régio
modelo, as mais correctas, mais senhoris e mais elegantes, para dar o movimento da figura
do cavaleiro, combinado com a do garboso corcel por ele montado. Da figura de El-Rei, e da
expressão do seu rosto, pode dizer-se que se desprende, para valorizar esta obra de
pintura, essa suprema qualidade de estilização que, como diz Charles Blanc, é o mais
alto ponto a que a obra de Arte pode atingir. Quem vê este quadro surpreende na sua
figura principal a figura dum Rei.
Por essa ocasião publicou O
Correio da Noite um longo artigo de que destacamos estes trechos: Não nos
lembramos de nenhuma obra de arte, que tenha alcançado mais completo êxito nos últimos
anos ...
Sobre o belíssimo quadro de
Carlos Reis tem-se falado e escrito muito e, no entanto, através da rapidez e fugaz
descrição jornalística das impressões dos visitantes, sente-se, quase sempre, vibrar
uma emoção verdadeira e sentida.
A figura de El-Rei está
soberbamente traçada, a naturalidade do semblante, de aspecto nobre e bondoso, a viveza
inteligente do olhar, realçam a exactidão e verdade do movimento e posição do corpo,
que cai bem no sela, dominando o admirável corcel que El-Rei monta. El-Rei a cavalo
destaca-se naturalmente na tela, tão harmonicamente ligado às mais insignificantes
minúcias do quadro, que não há plano, mancha ou contorno que se não adivinhem
subordinados a essa figura primacial. O corcel que El-Rei monta está soberbamente
pintado, tem vida, movimento, sangue e nervos, os oficiais superiores que acompanham
El-Rei, e cujo agrupamento é deveras feliz, estão sóbria e admiravelmente retractados;
a paisagem é emocionante de luz e realidade; as figuras dos soldados, que ocupam os
últimos planos, estão indicados com perfeita naturalidade; todo o quadro tem tanto ar e
tanta luz, que nos dá clara e poderosamente a impressão do campo, do ar livre, da nossa
terra portuguesa. No entanto o espírito, sentindo cada uma destas qualidades estéticas,
todos concentra na figura de El-Rei, que domina o quadro com um vigor de tons e uma
nobreza de linhas, que fazem a maior honra ao pincel de Carlos Reis. Este retracto ficará
no pintura portuguesa com um assinalado valor estético.
E termina assim: O
retracto de El-Rei é uma obra profundamente sentida. Quis o artista testemunhar por ela o
seu reconhecimento e gratidão a quem deve tantas e tão cativantes provas da régia
estima. Fazendo este retracto e oferecendo-o a El-Rei, realizou um bem antigo desejo do
seu espírito e do seu coração. Quem escreve estas linhas conhece Carlos Reis há muitos
anos e seguiu com o maior interesse artístico a realização da obra prima de que vem
falando; do qual se pode dizer que a nobreza dos sentimentos que a originaram se casa bem
com a pureza dos ideais estéticos que ela realizou.
Abel Botelho, nos Écos da
Avenida disse pela mesmo ocasião: ... Esse soberbo retracto de
El-Rei, admirável exemplar de pintura em plein air com
a sua luz quente e exacta, com a sua amplidão de planos e o seu violento destaque das
figuras, vibrando todo dum forte cunho pessoal e fazendo-nos evocar pela magia da
impressão, pelo modelado, pela cor, pelo processo, vagas reminiscências de Lebrun,
Meissonier, Gerôme e outros grandes fixadores clássicos da figura humana.
Falou-se também muito do retracto do Dr. Avelino Monteiro, exposto pela mesma ocasião.
Mas antes de passarmos a outras obras, vejamos o que estrangeiros disseram do Retracto de
El-Rei D. Carlos quando exposto no Salon de 1905. Como os críticos do Salon tinham que
examinar milhares de trabalhos, não é de estranhar que a poucos possam consagrar
atenção, e que a esses mesmo não dediquem grandes apreciações. Já o facto de citar
algumas obras expostas representa por essas privilegiadas consideração desusado.
Assim
fizeram simples referências ou curtas apreciações ao Retracto de D. Carlos:
Éclair (un três beau portrait de Sa Majesté le roi du Portugal passant
une revue, accompagné de sa maison militaire); Evening Standard (O retracto em tamanho natural do Rei Carlos 1.º
de Portugal, cercado pelo seu brilhante Estado Maior, pintado pelo célebre artista
português Carlos Reis num quadro imponente; a semelhança do Rei e dos seus oficiais é
fidelíssima ao que me dizem): Figaro (on
classera parmi les meilleurs portraits de
l'anée : ... du Roi de Portugal avec sa suite);
Lyon Républicain (M. Carlos Reis a
exposé un beau portrait du Roi de Portugal, d'une notation
três juste et d'une coloration fort bien étudiée): Le Voltaire;
Le petit Var; L'Art et les artistes (Le portrait de roi de M. C. Reis est fringant et
décoratif à souhait); Petit Journal
(Le roi Carlos de Portugal, à cheval, suivi de
son brillant état-major, est une toile troitée avec éclat par M. Carlos Reis, bon peintre portugais, élève de
nos maïtres); La Liberté; La Dépéche de Rouen; Le
Petit Journal (Le souverain (Eduardo VII),
dirigé par son cuide compétent (Detaille), s'est arrêté devant les principales oeuvres
exposées, notamment devant le portrait du roi
de Portugal et de sa maison militaire par Cartas Reis); L'Art
et la Femme (11 y a foule sympathique devant
le portrait du Roi de Portugal don Carlos I et
de sa maison militare, por un artiste de Lisbonne,
M. Reis); Allgemeine Zeitung (Un
portrait équestre exquis du Portugais Carlos Reis réprésente le roi du Portugal à la tête de son état major); Journal de
1'automobile (le grand tableau de M. Carlos
Reis, réprésentant le Roi du Portugal avec sa
suite; les montures sont peintes avec beaucoup de
largeur et de verve et une excelente couleur); Patrie, em artigo assinado
por Jean Tarbel (Cette salle, três grande, contient
des ceuvres interessantes. L'une des meilleures
est le portrait de S. M. le roi, de Portugal Don Carlos 1 et de son maison militaire, par M . Reis; le roi est vu à cheval de trois quarts; un groupe d'officiers en grande tenue
le suit; à gauche, ou fond d'une pelouse, on aperçoit la haie des fantassins; la peinture est claire,
brillante, quoique inégale d'exécution; les chevaux sont bien construits; les uniformes, les ors et les cuivres
éclatent en tons riches.); L'Art et La Mode; Écho de France
(De M. Carlos Reis le portrait du roi de Portugal, plein de qualités de lumière qui papillote
un peu sur les chevaux, les casques, les uniformes, toutes ces choses bien étudiées, que M. Detaille doit estimer mieux que personne.); Le
Sémaphore; La Revue Française; Die Post; Neuest
Nachrichten; Tagblatt der Stadt St. Gallen;
Kölnische Zeitung; National Zeitung (não só retractou de maneira notável D. Carlos 1, mas também lhe deu um
magnífico quadro militar); Sonn-u-Montags Zeitung; Neue Zürcher
Zeitung.
Já então Carlos Reis trabalhava no
decoração da solo de baile do hotel do Bussaco. O Correio da Noite descreve
assim as peças que se destinavam a revestir uma parede de 14 metros: A
composição é muitíssimo feliz, oferecendo um belo aspecto decorativo. Representa uma
festa medieval numa floresta dum colorido pálido e sentimental. Os grupos de músicos
tomam elegantíssimas posições. Os trovadores tangem as liras e figurinhas suaves e
melancólicas dedilham cravos, cítaras e harpas. Dum dos cantos surge o castelo medieval
donde vem descendo o senhor, a castelã e seus convidados.
Em princípio de 1906, Os
Burros, pela pena (iria jurá-lo embora não assine o artigo) de Joaquim Madureira,
dizia de Carlos Reis, que expusera poucos dias antes no Salão Bobone com os seus
discípulos dilectos: Certo que nem todos os quadros se igualam, nem todos
têm, como Arte, o mesmo significado e o mesmo valor, e, se no catálogo do Mestre, O
Grilo do Penêdo em painel de Museu, é um breve resumo de todo a técnica inconfundível
dum grande pintor, que joga às dificuldades e ganha nos impossíveis, ainda assim ele
não vale este Moinho da Azenha, paisagem sem
céu, com os primeiros planos a esbarrarem-se na encosta íngreme dum monte e que é,
entre os palmos de paisagem portuguesa que os nossos maiores paisagistas têm passado à
tela, o pedaço mais sólido, mais forte, mais característico e mais português que eu
conheço na pintura contemporânea. Como paisagem Carlos Reis nunca fez melhor, e como
Arte não conheço que muitos hajam feito igual ou tão bom. Na Levada do Moinho com águas, com céu, com
verdes de arvoredo e muros brancos de casas a vista repousa, talvez, com maior
encanto, com maior prazer do que sobre os tons barrentos e fortes da Azenha, e estou em
dizer que no Museu de Arte Contemporânea, onde se deviam albergar apenas as raras obras
primas dos mestres do nosso tempo, seria a Levada o pendant da Azenha, se não fora a
minha antipatia pela figurelha de saioto vermelha e mantilha branca que, a meio do riacho,
decora, em cartão postal,
este regressivo do natureza.
Já então e perdoe-se-me o
parêntesis então João Reis expunha quadros, e dele dizia o mesmo Joaquim
Madureira no mesmo artigo de Os Burros: João Reis, que na
certidão de baptismo tem dezassete anos de idade, nestes sete quadros do Bobone
parece, com todo o frescor do juvência, ter trinta anos de ar livre e quarenta de
atelier. Não é um debutante a tactear incertezas; é um virtuoso a orquestrar
dificuldades. A largueza da factura, com dedadas soltas, com pinceladas cegas, não e uma
bizarria do acaso, e, como não pode ser um segredo do ofício, tem de se admitir que seja
um dom da natureza. Quer com cores vivas, verdes macias e tenras, amarelos suaves e
brandas, ele deixe correr a paleta na alacre sinfonia dos dias radiosos de sol, como na Margem do Rio, no Moinho da Levada
e no Outono no Arieiro, quer, em tons magoados
e sombrios, castanhos terrosos e barrentos, negros esfumados e duros, ele carregue a
espátula na melancólica meia-tinta das tardes nubladas de chuva, como no Canto triste, nas Casas velhas ou na Latada do Moinho, João Reis sente e faz sentir a
alma da paisagem, e os seus quadros, em que há a frescura das sombras e o brasido dos
soalheiros, deixam-nos nos olhos a impressão viva das cores, mas deixam-nos no espírito
o misterioso sentimento da Natureza. O Moinho do
Levada é o quadro dum belo pintor, mas a Latada
do Moinho é o poema dum grande artista. Aos dezassete anos quem assim pinta embora
seja filho dum Artista-pintor, como o Mestre Carlos Reis, tem obrigação de vir a ser, de
aqui a uma temporada de trabalho fecundo, de fecundas e trabalhosas iniciações, não só
o maior pintor da sua família mas um dos maiores pintores dos nossos tempos e o
maior artista da sua terra porque João Reis, quase uma criança, um rapazelho
imberbe e esgrouviado, já hoje solta em talento, em intuição, em sentimento e em
factura, com malabarices de paleta e japonerias de cor, para cima dos camaradas e dos
mestres parecendo, o garoto, que veio ali para o
salão, com dois ou três painéis, jogar o eixo com o Pai
passando-lhe por cima de trinta anos de atelier e trinta anos fecundos e
prodigiosos de prodigiosa e fecunda Arte.
Fechei o parêntesis e não o tornarei
a abrir, não vá o Pai ter ciúmes do filho... Além disso não quero invadir os
domínios do Sr. Carlos Sombrio a quem a glória de João Reis pertence de direito, embora
me pertença também um pouco a mim visto ele ser uma das melhores, mais fortes e mais
belas obras de seu Pai.
Na Província, de Viseu,
Ribeiro Artur dizia em 24.5.907: Em Portugal ainda há um pintor retratista
que ultimamente muito tem subido. Dum verdadeiro talento e grande capacidade, Carlos Reis
que de volta de Paris vinha, embora audacioso, ainda periclitante, saindo para fora das
normas do espírito natural fazendo arrojadas tentativas e caindo em exageros, hoje
equilibrado e retemperado pela doce atmosfera da pátria, em plena pujança da sua
individualidade, tornou-se um mestre nessa difícil arte de retractar. Na última
exposição do Sociedade Nacional de Belas Artes o retracto do Conde de Sabugosa e outros que apresentou, entre os
quais o duma senhora, são verdadeiros primores.
No Dia 8 de Maio de 1909, o
Dr. José de Figueiredo faz observações severas a vários retratos expostos por Carlos
Reis, e termina assim: Na obsessão do retracto, género onde o Sr. Carlos
Reis, com todo o seu talento de pintor, correrá o risco de não deixar de ocupar nunca um
segundo plano, o Sr. Carlos Reis quase abandonou a pintura de paisagem. Lastimamo-lo
deveras. O Sr. Carlos Reis provou largamente,
nesse campo, o seu grande valor. E ainda este ano, em pequenas telas sem pretensões, e
feitas decerto para repousar dos seus trabalhos de retracto, se afirma o mesmo tradutor
brilhante dessa nossa velha mãe e amante de todos os dias, a Natureza.
E todavia, é desse ano e figurou numa
exposição o belo retracto do Conde de Mafra e
outros que foram todos elogiados pela crítica.
Num Diário de Notícias de Junho
de 1911 depara-se-nos a transcrição de parte dum artigo de Vega y March do Diário
de Barcelona, que passo a trasladar: Do conjunto da secção de
Portugal sobressaem os quadros firmados por Carlos Reis, e que são, três deles pelo
menos, os três retratos, verdadeiras obras de Mestre. Com absoluta fidelidade dá-nos o
pintor nos seus quadros a ideia exacta das personagens retractadas; neles resplandece a
vida em modalidades diferentes, mas sempre com a mesma intensidade real, com a mesma
energia de evocação e de representação; a sua clarividência de que o artista se não
limita a reproduzir-nos os rasgos físicos do semblante, pois busca também no
temperamento, no espírito das personagens que retracto, dando-nos delas uma
exteriorização estética que faz recordar o trabalho dos grandes mestres da pintura;
respeitador da verdade, procura formas de expressão justas e belas, para todos os
elementos do conjunto, tratando-os com sobriedade, com simplicidade, com certa grandeza de
execução, o que constitui um dos seus maiores méritos. Não cai no trivial da factura
detalhista, nem no vago e no imprevisto dos que fazem gala em não atender aos detalhes. O
seu pincel, inteligente e probo, se nesta forma sabe expressar a ideia, detém-se no que
exige, pelo seu carácter e atenção; passa sem deter-se, não como se fugisse, com a
nobre majestade do grande senhor, por aquilo que não requer prodigalidades extremas. O
carácter pictural das suas obras oferece evidentes analogias com o dalguns grandes
pintores espanhóis.
Em 1911 também pintou o retracto do Dr. Pinto Lopes, advogado em Torres Novas,
excelente trabalho que estava destinado a ser destruído por um incêndio em África, por
ocasião duma revolta de indígenas em 1917; e o admirável retracto do ilustre pintora D. Adelaide Lima Cruz, do qual se fala adiante.
Em 1912 encontramos Carlos Reis em
Madrid na Exposición de Bellas Artes. E lemos em El Liberal:- ...
dos retratos: el del Dr. Avelino Monteiro y el de la Exma. señora doña Adelaide de Lima,
debidos al pincel de Carlos Reis. El del doctor
recuerda la paleta de Domingo Márquez; con esto creemos haber dicho todo. El segundo,
además de la solidez de su factura, de la caliente y jugoso dei calor, de la vida que
brilla en aquellas ojos negros, es de una elegância suprema. La mano, que con tanto
naturalísimo movimento sujeta el pañuelo y lo acerca al rostro, no puede pintarse con
más delicadeza. Si algun lunar, bien pequeño por cierto, se advierte en este retrato, es
el escorzo del brazo derecho.
No El
Imparcial, com a assinatura de Francisco Alcântara, lê-se: Empezando
por las obras de Carlos Reis, según el orden de colocación en la salo, encuentrase un
retrato: el del doctor Avelino Monteiro. Tal
como aparece este doctor, es un hombre de caráter algo ácido, moreno negrusco, de recio
crâneo y faz áspera, de barbas y de pelo hirsutos; uno de aquellos por quienes se dice: El hombre y el oso, mientras más feo más hermoso. Tentado estaba de
decir que el tal doctor tiene cara de vinagre si no fuese porque, al través de tan
farrucas apariências, se adivina una persona bondadosa, como ocurre con muchos de esos
cetrinos verdinegos que parecen dispuertos à comerse los niños crudos y luego son la
bondad misma. Cuando un retrato pictórico ó escultórico suscita la ideologia que he
insinuado en los renglones antecedentes, ese retrato es una obra de arte, y otra señal
inequívoca de que efectivamente la es este retrato, la da el hecho de que á poco de
contemplar la cabezota del doctor Avelino Monteiro, ve uno que ha hecho dos amigos: uno el
doctor retratado, y el otro es el pintor retratista. Por una fisionomia llena de espiritu,
la de Monteiro, nuestro amigo del momento, vamos à la amistad del pintor que tan
gallardamente retrata las almas. Sigue a
este, tanbien de Reis, el retrato de la Exma. Sra. Doña
Adelaide de Lima, retrato de una elegância que ha de encomiar diciendo que es
elegancia de alcurnia francesa. Ocupo todo el testero de enfrente en esta sala el lienza
de grandes dimensiones que se titula A Feira, y
en el que Carlos Reis ha puesto un áspero y atractivo sentir de la vida agreste,
compesina, bucó1ica, gitanesca, de los mercados rurales, delas ferias, que en los pueblos
de mediodia evocan los más bellas pasajes de la literatura antigua, griega, latina,
medieval, por repetirse al través de los siglos, siempre iguales bajo la acción del sol
providente, esos hermosos derroches de alegria, de agitación y de estruendos que se
llaman ferias. Bajo un pino colosal tienen sus ranchos muchos feriantes. Mézclanse com
los grupos de mansas bestezuelas, muletos y borriquillos, toda especie de tipos populares:
á la derecha se destacan, muy bien pintados, muy veraz y gallardamente pintados, la maza
en la que un mazallon, entre tierno y maleante, pone los ojos, y al través de la greña
del pino, y por debajo de su copa amplíssima, se distingue todo el extenso ferial. Parece
que se oye un caramillo, talvez sueno la gaita. Al primer grito, à la primera ronda de
vinillo alegrador de las multitudes, toda esta gente se desgranará en parejas e en corros
de danzantes y de cantores. Tiene este quadro de Carlos Reis algo de la sintética y
decorativa asperura de un soberbio, bien tecido y deslumbrante tapiz, y aunque no carece
de delicadezas pictóricas, algo basto, como el tufo de la majada donde se elabora el
queso; tufillo que se extiende en torno y perfuma los montes y las cañadas cuando el
viento de la tarde la lleva de acá para allá; algo como olor a corambres repletos de
tinta, de baho de calderos en que se codimenta la pitanza de olor à multitude trajinante;
algo de todas estas cosas tiene este cuadro de Carlos Reis; de pintura asperísima, que la
mayoria de nuestro público extranhará, por eso, por su aspereza; pero en la que canta
una voz poderosa la canción eterna del agro fértil, produtor del pan, dei vino, de las
frutas, de las ganados y dei hombre, que sabe gustar de todo, y darle valor, y amar y
multiplicarse.
No fim desse ano, Carlos Reis mostra o
quadro em acabamento Raios de sol ardente, do
qual Sousa Costa diz o seguinte no Primeiro de Janeiro: ... a
vasta tela a que actualmente entrega o melhor, o mais ansioso e o mais apaixonado dos
impulsos criadores do seu talento. É uma tela que ocupa o atelier na quase totalidade da
sua largura. No primeiro plano vê-se um saloio moço e ingénuo, duma singeleza amorosa
de pastoral, que se encontra no seu caminho com uma rapariga sadia e alegre, parando,
disparando-lhe um madrigal que a faz sorrir de malícia, voltando o rosto gaiato, em que a
luz do poente se projecta em cheio. No segundo plano, por detrás do saloio, uma junta de
bois rumina na sua calma passividade resignado, e espera que o camponês se ponha em
marcha em direcção ao estábulo. E ao fundo, através da ramagem das árvores,
descobrem-se telhados duma povoação minúscula, meio diluídos no fluido sanguíneo da
linha extrema da perspectiva. Todas aquelas figuras são tratadas com o escrúpulo
minucioso, com a observação rigorosa dum artista psicólogo, dum pintor naturalista. Mas
o que acima de tudo impressiona e domina, nem são as figuras, a palpitar de vida, nem as
árvores a murmurar as preces vagas do sol-pôsto, nem a restolhada em que o arvoredo
recorta os caprichos esquisitos das suas sombras. O que ali essencialmente e profundamente
empolga, ferindo a retina como um esplendor de apoteose, é a luz crepuscular do poente,
envolvendo todo o cenário bucólico num rubor de fornalha a arder. Parece que o artista
embebeu em fogo o seu pincel inquieto, espalhando pela tela, numa exuberância magnífica,
o crepitar e o reverberar da chama rúbida que o fascina. Luz fulgurante e sinistra,
ímpeto feérico de vida a extinguir-se, incerteza espectral do mistério que se aproxima,
morrendo em cambiantes de rosa murcha e de violeta desmaiada no recato das ramagens
tranquilas ela, por si só, pacífica e triunfal, bastaria para nos dar a medida
exacta do inconfundível paisagista que é Carlos Reis.
Em 1913 expôs Gerânios e malva-rosas de que na Lucta
se dizia: ... de avultadas proporções, duma execução largo e vigorosa.
Uma encantadora figura de mulher, num recanto iluminado, colhe o seu ramo, parecendo que
as flores enrubesceram ao contacto das suas mãos delicadas. Há sensibilidade em todo o quadro, a despeito dos
contrastes de luz e de cor, e pretensioso seria que pretendêssemos dar a impressão que
ele causa no observador.
Nesse ano expôs Carlos Reis o quadro Raios de sol ardente de que Sousa Costa já nos
falou, mas de que Sobral de Campos escreveu em Terra Livre o seguinte:
Bela tela em qualquer porte! A vida que em si encerra e dela se depreende! A
alegria, a saúde, a bondade forte do natureza fecunda! Nada esquece. Não são
simplesmente os dois o rapaz e a rapariga que vão à frente dos bois que
Carlos Reis trata com carinho. Eles vão digo vão porque essas duas figuras têm
relevo, movimento, vida seguindo no seu idílio simples, idílio sem
artificialidades, sem constrangimento, transpirando a voluptuosidade natural e saudável
a mesma que vem da terra, das árvores festivas e dos horizontes iluminados.
Sorriem ambos... Ela vai enleada e contente, o seio farto, cesto no braço, os pés
descalços sobre a terra... Ele, de aguilhada ao ombro, esquecido dos bois que caminham a
seu lado pachorrentamente, vai todo embevecido na sua contemplação e domina-o com o
olhar quente que a envolve toda numa mordente carícia... Mas tudo é cuidadosa belo nesta
grande tela. Os bois, os diferentes planos do terreno, as nuvens do horizonte, umas
nuvenzitas de calmaria, dos grandes dias de sol... É tudo! A frescura do cesto! A graça
das parras que dele saem! E até sobre os olhos dum dos bois daquele cuja cabeça
se vê quase inteiramente pendem as tiras de coiro de que me não lembra agora o
nome apropriado. Não fosse a nostalgia, o misticismo desse olhar, pôr uma nota de
tristeza naquele quadro onde só a alegria grito num soberbo triunfal Raios de sol ardente é como uma página grande de
Zola!
Falaram ainda de Raios de sol ardente O Dia,
Correio do Brasil Correio da Europa.
É também de 1913 o retracto da Exmª.
D. Carolina Joque, um dos mais célebres
trabalhos do Mestre.
Em 1914 só há notícia de ter exposto
um quadro, o retracto da menina E. da S. G., do
qual disse um jornal: Carlos Reis é um grande artista, de especialíssimo
temperamento, cheio de nervos e sensibilidade, que deslumbra pelo seu talento. A sua
técnica é larga e fecunda, cheia de efeitos e maravilhosa de cor. Concorre à
exposição também com um único trabalho. Esse trabalho, um retracto de senhora, é
porém um encanto. Aquela figura gentil é tratada com uma delicadeza inexcedível. Parece
ter sido surpreendida num movimento gracioso, pelo olhar prescrutador do artista, e
procurar num enleio quase imperceptível, disfarçar a sua natural timidez. A técnica de
Carlos Reis, cheia de riquezas de cor, distinta e elegante, encontrou neste quadro
óptimos motivos para se desenvolver. A figurinha deliciosa de desenho as
peles, as rendas dos punhos e do pescoço, e a série de detalhes que compõem o fundo,
são todos tocados com essa magia de sentimento, de cor e de efeitos, a que nos habituou
já o excepcional talento do mestre.
Na exposição do S.N.B.A. de 1915,
Carlos Reis expôs As engomadeiras, que se
encontram no Museu de Arte Contemporânea, A
merenda, um retracto e quatro pequenas paisagens. Das Engomodeiras disse o Diário de
Notícias: As engomadeiras, no
qual se destacam num dos primeiros planos duas figuras admiravelmente bem lançadas, é um
trabalho de dificílima execução por nele predominarem os brancos das roupas e tendas,
às quais não faltam a transparência e a finura. Carlos Reis tem um talento infalível
para ver as linhas dos seus modelos, para lhes arrancar o encanto que eles têm, ou que
eles lhe sugerem, e o sentimento da espontaneidade e do entusiasmo dominam sempre. Por
mais ingrato que seja o assunto, o seu golpe de vista sabe encontrar as qualidades de cor
e a elegância do forma. A sua alma de artista põe-se de parte para a dominação do
modelo, o que facilita a expressão do sua visão pessoal, e, cingido sempre à ideia de
reproduzir a harmonia dos linhas e das cores, vê-se claramente que não tem as menores
hesitações para obter efeitos.
Da Merenda disse o mesmo jornal: ... é
um trecho delicioso de frescura, de harmonia e de cor, como o são as suas deliciosas
paisagens de Colares. O talento de Carlos Reis em materializar o tempo é magistral.
Assim, o primeiro clarão da aurora é bem a primeira luz da aurora e não o meio dia; o
meio dia não é o pôr do sol. Isto sente-se, isto respira-se em todas as obras do grande
pintor.
É também de 1915 o admirável
retracto a carvão do grande artista Teixeira Lopes.
No ano seguinte ainda expôs o Mestre
um retracto de senhora jovem e a Primeira comunhão.
Dum e doutro diz Sousa Costa no Primeiro de Janeiro: São
ambos em rendas alvas de neve. A retratada da primeira tela é uma figura de rapariga,
fresca como um pâmpano, numa expressão doce e enigmática de sonho e de sorriso. Não
pousa vive. Escuta, espera. E as rendas que a envolvem, que lhe afagam a moça
carnação do seio, que lhe diluem a tenra nudez dos braços, que lhe cingem o busto fino
e alto, palpitam, flutuam dando no conjunto e sob as diversos tonalidades do luz
ambiente, uma verdadeira e admirável sinfonia em branco. Sem trucs, sem exageros, honestamente, o Mestre tirou
do branco todos os seus efeitos luminosos conseguindo aquecer, animar a sua tela
encantadora de maneira a prender-nos o olhar sem nos provocar cansaço. Na Primeira comunhão tudo é perfeito e sugestivo,
desde os acessórios às figuras as velas a arderem, os véus a arfarem, a
fisionomia dos duas pequenitas que vão receber o Senhor, com os olhos cheios de
sinceridade, com as boquitas entreabertos de comoção.
Ainda nesse ano o Mestre expôs no
Salão Bobone, Fim do outono, de que A
Lucta disse: ... mais uma brilhante documentação do seu alto valor.
Árvores esguias, meio despidas de folhas, no primeiro plano, e depois uns grandes longes
de finas e tristes tonalidades.
Do mesmo quadro dizia A
Capital em artigo firmado por A. de A.: É a hora nostálgica, a hora
mística do poente. Um recolhimento sagrado domina a paisagem. As últimos chamas solares
incendeiam o horizonte longínquo. O ar
circula através da romaria das árvores. Os altos céus tomam a cor do pérola, enquanto
as primeiras sombras vestem a terra que vai adormecer. Que delicadas, que exactas, que
flagrantes gradações de luz! Toda a poesia das coisas eternas, com a sua graça, o seu
perfume e a sua pureza, vive e recende neste maravilhoso pedaço de tela...
Dos Cristais, exposto em Maio de 1918, dizia Norberto
de Araújo em A Manhã: Leitor, é uma das poucas boas coisas da
exposição. Os Cristais é uma maravilha. A
cabeça da pequena que conduz a bandeja, olhos vívidos, enormes de cintilação,
cabeleira a perder-se no fundo da tela, mas desenhada larga e bela, assenta
equilibradamente sobre um tronco a adivinhar-se esbelto, e fixa-se na nossa retina, que
chegou já até ali embebedada de muita feitiçaria insignificante, mas fixa-se de tal
maneira que estamos ainda milagre! a vê-la, a senti-la. Mas não é só
este detalhe; o quadro em tudo é bom, e contribui a salvar o conjunto da galeria duma
maior pobreza.
Em Junho de 1919 Carlos Reis e seu
filho foram ao Rio de Janeiro e ali se demoraram até Outubro do mesmo ano. Do triunfo ali
obtido, tanto sob o aspecto artístico como financeiro, disseram todos os jornais cariocas
e copiaram-o muitos jornais portugueses. Carlos Reis foi ali expor 44 telas, e João Reis
11; o primeiro vendeu 14 e o segundo 6. Logo de princípio começaram a receber
encomendas, tendo Carlos Reis pintado uns vinte retratos, entre óleos e carvões.
Nos últimos dias do sua estado no Rio,
organizou-se uma exposição dos trabalhos ali realizados. Segundo O Paiz a
exposição não estava completa, pois nela faltavam pelo menos os retratos do Dr. Epitácio
Pessoa, Filinto de Almeida, José Rainho do Silva Carneiro e Alexandre Albuquerque. Segundo o mesmo jornal eram
todos esplêndidos, dignos do grande mestre que é Carlos Reis. Há nesses quadros
vida, movimento, alma, além da técnica, aquela técnica duplamente excepcional, por ser
só sua e muito nobre e muito larga.
Seria
impraticável dar sequer um resumo do que a imprensa carioca disse dos dois artistas e dos
dois homens. limitemo-nos a transcrever da Revista da Semana o artigo que
publicou acerca do retracto que a colónia portuguesa do Rio encomendou a Carlos Reis para
ser oferecido ao Presidente da República: Tecnicamente o retracto é, no
opinião unânime, uma obra-prima; verdadeiro quadro de escola, pelo arranjo sábio do
conjunto, e do cenário, pela opulência dos acessórios que envolvem a figura do
estadista no ambiente adequado à sua eminência política. O Presidente do República
está de pé, com a mão direita apoiado à sua secretária, onde se reúnem, como
símbolo da personalidade intelectual e do labor do Chefe do Nação, os livros e os
papéis do Estado. Pela composição e pela intenção é um retracto do estilo clássico,
da escola tradicional dos grandes retratistas históricos: um verdadeiro retracto
biográfico. Há, porém, opiniões discordantes sobre a verosimilhança fisionómica da
obra de arte. A fotografia popularizou um Presidente sorridente e juvenil, e o retracto
apresenta-nos um estadista concentrado, com o vinco voluntarioso do intercílio; uma
figura que revela preocupação e energia; um vulto imperativo, exalçado nas suas
medianas proporções físicas por uma alta consciência do seu posto representativo; um
estadista, na plena acepção histórica da palavra, com a dignidade despretensiosa, mas
altiva, do poder de que a Pátria o investiu. Acreditamos e sabemos que, na intimidade
familiar, o Snr. Dr. Epitácio Pessoa não é aquele homem severo e concentrado, aquela
representação moral duma energia permanentemente tendida para a acção. O pintor não
fora, porém, incumbido de reproduzir na tela as feições do cidadão, pintando-o no
recato feliz do seu lar, junto do esposa virtuosa e das filhas idolatradas. Foi no
Palácio do Catete, no gabinete de trabalho da Presidência que o artista o encontrou.
Através das sessões de pose, o professor do Escola de Belas Artes de Lisboa viu desfilar
em frente do Chefe do Estado os seus secretários, os ministros, os políticos que mais de
perto privam com o Presidente. Devemos elogiar o senso psicológico do artista que,
colocado diante do seu modelo, soube penetrar fundo na sua compleição moral, dando-nos a
figura flagrante do Chefe do Nação Brasileira no instante histórico em que ela vai
perfazer o primeiro centenário da sua independência, em plena e activa consciência da
sua soberania e dos destinos grandiosos para que caminha, colocada no quinto lugar entre
as maiores nações do Mundo. Emancipando-se do convencionalismo que o auxiliaria na
tarefa de nos transmitir uma interpretação superficial, o artista português preferiu
dar-nos o representante simbólico da soberania do Brasil, do Chefe eleito do nação
poderosa e forte, definitivamente na posse zelosa da sua autonomia, colocado num lugar de
honra no plêiade das grandes nacionalidades do Universo. Aquele que ali está é,
realmente, o impávido adversário do grande Marechal de Ferro, a quem o destino reservara
a tarefa política de completar na paz e no campo do direito a obra gloriosa do
formidável estabilizador da República, do estadista providencial de 1893. Aquele homem
grave, pensativo, com uma tão absoluta expressão de querer, uma tão intelectual
fisionomia, uma tão imperiosa dignidade, que o artista português nos apresenta na sua
tela admirável é, de facto, o Presidente nacionalista, campeão do patriotismo
militante, o verdadeiro sucessor de Floriano Peixoto, em cuja energia a Nação confia, e
em cuja inteligência ela se revê, calma e orgulhosa.
Em 1921 há notícia duma exposição
no Salão Bobone de Carlos Reis e seus discípulos, e outra na Lousã de Carlos Reis e
seus filhos João e Maria Luisa. Uma correspondência do Lousã para o Século
menciona do primeiro O Baptisado, A esmola do sábado, A passagem do círio e O último soneto.
Em 1922 encontramos Carlos Reis e seu
filho em Buenos Aires. Dias depois
de inaugurada a sua exposição, o jornal La Nacion dizia: El
arte português, a juzgar por esta interessante muestra que nos han traído los pintores
Reis (una muestra como de cien quadros) caracterizase y diferenciase del español, con ser
los dos pueblos tan vecinos, por su mayor subjetivismo, mayor suavidad, menos realismo y
menos violencia. Dentro del arte europeo, la tecnica de los dos pintores que actualmente
exponen en el Pabellon Argentino, la del maestro Carlos Reis principalmente, acércase a
la escuela francesa más que a cualquier otra y,
dentro de ésta, a las orientaciones que predominaban en ella en el último tercio del
siglo pasado, cuando nuestro Sívori nos volvia de Paris con el cuadro Le lever de la servante y otros semejantes, que pudimos apreciar
en la exposición póstuma de las obras de nuestro compatriota. El pintor Carlos Reis,
como Sivori, es un artista eclectico en cuanto a los temas. Lo mismo y con igual maestria
aborda la naturaleza muerta que el retrata, la pintura de género que los interiores. No
es de esos pintores monocordes que explotan hasta la saciedad el mismo tema y el mismo
modelo, reeditando un cuadro que tuvo êxito, diez e veinte veces, con ligeras variantes.
Un cuadro de Carlos Reis se diferencia de otro del mismo pintor como un aspecto de la vida
urbana puede diferenciar-se de un paisage y éste de una figura de salón. No es dificil
decir he aqui un Reis, como se dice he aqui un Soralla, un Romero de
Torres, un Zubiaurre o un Anselmo Miguel Nieto.
Ocupam-se
dos dois pintores portugueses com os maiores elogios, além de La Nacion, os
jornais La Republica, El Diario, La Razón,
Mundo Argentino, Critica, La Prensa, Caras e
Caretas, La Epoca, El Diario Español, Para Ti,
etc.
O Museu Nacional Argentino adquiriu de
Carlos Reis Limpando cristais e o Jockey Club de Buenos Aires adquiriu Os gaiteiros, duas obras primas no opinião da
imprensa,
Depois duma demora de pouco mais de
dois meses, os nossos pintores seguiram para o Rio afim de dar execução a várias
encomendas. foram ali recebidos com a mesma cordialidade que da primeira visita, e ali
realizaram também exposições de seus trabalhos, que mereceram os elogios a que já
estavam habituados. Em notícia publicada pelo Diário de Lisboa de 22 de
Julho de 1923 soube-se que o Governo Brasileiro tinha adquirido para o Museu de Belas
Artes do Rio de Janeiro o admirável quadro de Carlos Reis, O Baptisado.
Em Janeiro de 1924 João Reis fez uma
exposição de trabalhos seus no átrio da Misericórdia do Porto, que foi muito
concorrida e apreciada. Nesse mesmo ano expôs Carlos Reis vinte e três telas, sendo duas
extra-catálogo. Dessa exposição dizia O Século: Vejamos
alguns dos quadros cuja impressão de beleza mais profundamente se fixou no nossa
memória. Outubro é um maravilhoso trecho de paisagem outonal, de luz
admirável e expressão religiosa. Ocupa o lugar de honra e merece-o é uma tela de museu.
O copo partido é um quadro notável. A
transparência, os reflexos, os efeitos de luz nos cristais são inigualáveis. Não é
uma paisagem, mas é tão belo como se fosse. Reparação difícil, na maneira predilecta do pintor que sabe
fazer como ninguém as sinfonias brancas é prodigioso como efeito de luz,
admirável como perspectiva. A figura de rapariga, que nesse quadro se vê de perfil,
sente-se que foi amorosamente tratado. Bruma tem
o fundo e o colorido dos primeiros planos duma justeza e sobriedade tais que encantam. Tempestade é um quadrinho de difícil execução,
agradável. As cenas rústicas Descamisada e O Burro do meu vizinho são pretextos para o
artista dar largas às suas notabilíssimas qualidades paisagistas. Belas-donas e Flores
de Maio são duas telas preciosas pelo desenho e pelo colorido. Dia de mercado e Outono, cada um no seu género, são ambos quadros
notáveis, especialmente o último, em que os tons acobreados dos vinhedos são manchados
com rigor e justeza. Nascer da lua, ainda que
o motivo pictórico não sobressaia por demasiada originalidade, é realizado com mestria
e um alto poder de expressão.
A propósito desta mesmo exposição
diz A. P.: O salão Bobone é pequeno para conter tanta maravilha, tanto sol,
tanto claridade, em paisagens tão verdadeiras de expressão, que diríamos, caso a
assinatura de mestre Carlos Reis não estivesse visível, que elas foram criadas por Deus,
e não pelo artista. Carlos Reis tem uma técnica poderosa, onde não há uma hesitação
de cor; uma retina que combina as tintas instintivamente, sem necessidade de as nuançar na paleta; uma vibração de luz,
incomparável de frescura, de pureza, de graça e de harmonia. Temperamento dominando já
os elementos do sua arte, Carlos Reis, embora nunca se arredando dos seus assuntos
predilectos, consegue atingir, na perfeição, a transfiguração, transportando-o para
admiráveis distâncias de beleza e de forma. O seu pincel é a própria alma do paisagem,
o aroma das coisas, a hora, a estação, o crepúsculo, a madrugada. Suponho que Carlos
Reis conseguiria num pedaço de céu, notular, marcar, revelar as mutações de tempo,
minuto a minuto, instante a instante. Carlos Reis nesta exposição, triunfo sobre a sua
própria obra. Ultrapassa-a. Se nela havia horizonte e perspectiva, agora adquiriu aleluia
e infinito.
É também de 1924 o retracto do grande
poeta Eugénio de Castro.
No primavera de 1925 Carlos Reis expôs
no Sociedade Nacional de Belas Artes três quadros: Retrato de Maria Leonor, Lírios e A senhora Georgina. Dizia O Século:
Maria Leonor é a jovem e delicada poetisa, filha do pintor, espiritual
perfil, duma nobre, serena e reflexiva gravidade, em que se adivinham os altos e puros
pensamentos que a inspiram. Esse lindo e airoso busto, na simplicidade do seu vestido
verde, ressalta sobre o verde adamascado da cortina do fundo, sem que se confundam, antes
harmonizando-se, os dois tons. O quadro denominado Lírios
que é, com A senhora Georgina, um dos dois
mais poderosos trabalhos que honram a exposição e nos resgatam das culpas em que
incorremos quando a qualquer pinta-monos damos a categoria de artista, o quadro Lírios é um belo, delicioso e perfeito estudo
do nu, poema de carne virginal que recende à candura das flores simbólicas que lhe
servem de alfombra. Os lírios são como o espelho em que se reflecte a pureza da rapariga
desnuda, entregue talvez a uma enigmática meditação. Obra prima de modelação, de cor
e de técnica, das inúmeras dificuldades acumuladas saiu-se o artista donairosamente
vitorioso, como sempre. As tonalidades de carnação graduam-se, subtilmente, desde os
joelhos e as coxas, que uma luz discreta beija com suavidade, até os ombros e a cabeça,
quase envoltos no penumbra. A leveza, a fragilidade, a macieza, a alvura leitosa dos
lírios que pousam, dispersas, no tecido branco em que ajoelha e se apoia a figura são
dados com a arte magistral que caracteriza toda a obra de Carlos Reis, e que em particular
se afirma quando ele se compraz na execução de tais exercícios de assombrosa destreza,
erguendo-se às culminâncias máximas. A senhora
Georgina é outra esplêndida tela em que, ao sol meridional uma velha encorreada,
junto da qual se alinham abóboras sobre um muro caiado, ou postas ao acaso no chão, se
senta a descansar. A figura humana da campónia e os frutos da terra vivem a mesmo vida
vegetativa numa confraternização que enternece. A
senhora Georgina, cruzadas as mãos sobre o ventre, num à-vontade de quem não tem
receio de passar à história, parece dizer-nos: aqui estou, ao pé do minha
riqueza. A luz embriaga; a velha como que franze as pálpebras para se defender; as
cucurbitáceas têm um volume tal, uma cor tão justa, um espalhado tão verdadeiro e
flagrante, que apetece palpa-las, tomar-lhes o peso, abri-las para as ver por dentro.
Estão bem maduras por certo. As roupas da camponesa tratou-as o mestre com a mesma
inexcedível verdade que imprime existência real às abóboras. Nos seus processos,
Carlos Reis é de tal maneira simples, na aparência, que eles escapam à análise dos
entendidos, que se limitam a curvar-se perante a magia de tal pincel.
O Correio da Manha em
artigo firmado por Luigi dizia: Carlos Reis é já hoje uma glória nacional.
O seu talento é cada vez mais moço e robusto, a sua técnica cada vez mais poderosa e
segura. Os seus quadros Os lírios, A senhora
Georgina e o retrato de Maria Leonor, não
envaidecem o pintor mais do que aos seus admiradores, que podem dizer orgulhosamente ser
bem nosso, bem português, o eleito da Arte que assina tais maravilhas.
Foi por esta ocasião que os
discípulos dilectos de Carlos Reis organizaram a esplêndida festa de homenagem, em que
falou brilhantemente o insigne escritor Agostinho de Campos, e em que foram executados
vários números de música, e recitadas várias poesias, entre elas a seguinte do autoria
de D. Branca de Gonta Colaço:
QUADROS DE CARLOS REIS
Mundo
risonho!
É a terra
portuguesa,
posta em beleza e
sonho!
...............................................
DIA DE FEIRA! Um
festival clarão
inunda a estrada alegreme