free web hosting | website hosting | Business Hosting Services | Free Website Submission | shopping cart | php hosting
affordable web hosting Pets web page hosting web hosting website hosting web hosting service web hosting web host
 

"Lisboa, 14 de Novembro de 1931.

 

Ex.mo. Senhor Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Nacional de Belas Artes.

 

Em ofício que me foi comunicado pelo Ex.mo. Senhor Vice-Presidente da Direcção dessa Sociedade, tive conhecimento de que, em assembleia geral de 10 de Outubro findo, fora aprovada por aclamação unânime, a proposta apresentada pela Ex.ma. Direcção para que, solenemente, fosse colocado um medalhão, com a minha efígie, no local da sua sede, onde já se encontram outros medalhões de artistas portugueses ilustres.

Ao ler esta tão honrosa, como imerecida distinção, perturbou-se-me o espírito e, tão funda foi a minha comoção, que ainda agora não sei como traduzir por palavras o meu profundo reconhecimento a tão penhorante prova de estima, por parte da Ex.ma. Direcção que fez a proposta, como da assembleia geral que tão generosamente a aprovou.

É porém um dever, da minha lealdade e consciência, chamar a atenção dos dignos corpos gerentes da Sociedade Nacional de Belas Artes, dizendo-lhes que, desse gesto mais inspirado pelo coração que pela razão, resultaria, se viesse a realizar-se, um gravíssimo erro de consequências desagradáveis para a Sociedade, e para mim não menos comprometedoras.

A minha biografia artística não justifica essa homenagem de tão elevado alcance, porque de facto é, e incontestavelmente desde o seu inicio até este momento, humilhante e deplorável, como ides ver. Reprovações na Escola de Belas Artes de Lisboa, agravadas com a perda de anos, não tendo conseguido jamais o modesto Prémio Anunciação, que todos os meus colegas facilmente obtiveram: e, para seguir os meus estudos em Paris, como pensionista do Estado, tive que repetir o concurso.

Um ano depois da minha chegada àquela cidade, tentei expor no Salon dos Artistas Franceses onde eram recebidos todos os meus colegas portugueses. Com esse fim pintei numa tela quadrada o retrato, sentado, dum amigo e compatriota nosso, pomposamente gordo e ligeiramente condecorado.

Não fui recebido.

No ano seguinte nova tentativa, mas tendo profundamente meditado na possível influência da conformação dos portais do Palácio da Indústria, sobre a aceitação ou recusa dos trabalhos ali enviados para o Salon, pouco favorável a retratos de personagens anafadas, resolvi pintar numa tela esguia e alta, outro retrato, mas desta vez representando, de pé, uma esbelta e elegantíssima senhora da aristocracia francesa.

Novo desastre: segunda vez rejeitado.

Perdida a coragem de voltar a medir aquelas negregadas portas, desisti de lá tornar.

Magoado e desiludido, mas nunca desanimado, decidi então modelar em barro (coisa que eu nunca fizera até ali) um baixo-relevo, representando a Ingenuidade, que enviei, formado em gesso, à secção de escultura do mesmo “Salon” com o título En prière; e, com tanta fé, eu e o gesso, fizemos as nossas orações, que o baixo-relevo foi recebido e exposto no “Salon” de Paris que rejeitara os meus infelizes retratos.

Este período exótico da minha vida artística passou-se de 1889 a 1896.

É claro que, à cautela, como é uso dos verdadeiros triunfadores, não mais repeti o feito, do qual hoje só me resta, e não é pouco, a recordação consoladora de artigo então escrito para o “Comércio do Porto” pelo meu ilustre amigo o Sr. Conde de Penha Garcia, em que ele descrevia com o mais requintado espírito todos os altos e baixos que eu fora encontrar às portas do dito Salon.

Mas nem por isso o correspondente dum grande jornal de Lisboa deixou de pedir, lá de Paris, ao governo português, que fosse suspensa a minha pensão de Estado, em vista da minha desorientação e inépcia tão publicamente provada.

E assim glorioso e desconcertado, regressei a Portugal sem trazer comigo a mais mirrada baga de loureiro que ao menos servisse de guizo às minhas justas mas simples aspirações.

Porém aqui no meu País esperava-me muito mais e pior, como vão ver.

Nomeado Director do Museu dos Janelas Verdes, que eu não posso dizer à falta doutro, visto saber mais tarde que houvera outros pretendentes, o que de resto me foi fartamente confirmado pelos seus rumores, algum tempo depois um jornal de grande informação dava na sua primeira página a estranha notícia, de origem oficial, de que eu propusera a venda de obras de arte daquele museu, para, com o resultado dessa venda, forrar a papel as suas salas; e quando fui nomeado Director do Museu de Arte Contemporânea, que tinha sido recentemente fundado, outro jornal de grande nomeada, mas hoje extinto, em artigo especial, pedia a minha prisão, por ter, quando Director do Museu das Janelas Verdes, emprestado à Rainha a Senhora D. Amélia, sem autorização do Ministro do Reino, objectos de grande valor, expostos no dito Museu.

Se se procurasse a equivalência da minha desastrosa biografia artística, nos registos de qualquer esquadra de polícia, dava um cadastro suficiente para me levar às Costas de África e com a agravante de ter chegado a esta idade sem possuir a mais modesta condecoração, quer portuguesa, quer estrangeira.

Mas há mais ainda.

Como Director do Museu de Arte Contemporânea tais provas dei do meu desastrado critério e da minha ignorância em matéria de arte, que ao cabo de três anos, o Congresso votava a extinção do lugar de Director, que, como era de presumir, se restabeleceu, aliás com toda a razão, na pessoa do meu imediato sucessor.

Isto sem falar de vários percalços, entre eles o de ter sido desafiado para um duelo por um respeitável senador que atacara no Senado a criação do Museu de Arte Contemporâneo, que eu a seguir defendera na Imprensa com a maior correcção e urbanidade.

Jorge Colaço, que foi um dos meus padrinhos, disso se deve lembrar ainda.

O vosso honrosíssimo ofício invoca serviços por mim prestados à Arte e à sede da Sociedade.

Não me parece, porém, que eles tenham esse valor que tão generosamente lhes atribuem, e digo isto, porque nas primeiras eleições dos corpos gerentes, realizadas logo após esses serviços e já debaixo das telhas da sede da Sociedade, eu era afastado do lugar de vogal da Direcção; o meu ilustre colega Jorge Colaço, afastado igualmente da Presidência da mesmo Direcção, sendo deposto também, na mesmo hora e lugar, da Presidência da Assembleia Geral, o Senhor Conde de Penha Garcia!

Bem fracos foram pois os serviços prestados por qualquer de nós três, para que nenhum fosse reeleito para o seu antigo cargo.

Como artista, é certamente deplorável a minha desastrada decadência, porque se assim não fosse, o Museu de Arte Contemporânea não teria fechado as suas portas, vai para dezassete anos, aos trabalhos que anualmente exponho ao público, limitando-se a tentar adquirir-me, há quatro anos, uma insignificantíssima paisagem, exposta na Exposição do Grupo Silva Porto, com 35 centímetros de largura, aquisição esta que evitei, por considerar outros os fins dum Museu do Estado.

Não é só no mundo oficial que esta minha decadência artística é notória e confirmada, e, digo isto, porque há anos, tentando com um grupo de artistas de alto mérito, realizar uma exposição nuns salões cedidos pelo Estado a uma sociedade de que eu aliás fazia parte, ela indeferiu o nosso elevado intento em vista da tenaz oposição feita por um dos seus sócios, que se dizia grande apaixonado e entendedor de coisas de arte, o qual chegou a ameaçar com a sua demissão de sócio se tal exposição se realizasse.

E quantos casos lamentáveis me não ocorrem agora e que podiam avolumar fortemente esta minha biografia artística

Se a proposta da homenagem com que me queriam honrar fosse apresentada numa assembleia geral tão numerosa e variada como aquela última a que eu tão sacrificadamente assisti, não só ela seria rejeitada, como ainda eu me exporia a qualquer insinuação desprimorosa, que fosse apoiada com o silêncio dum sócio menos respeitador da dignidade alheia e que a ela presidisse nessa noite.ninguém nos poderia evitar tal vexame.

Evitemos pois não só esse, como outros, que porventura o meu medalhão poderia provocar; não faltaria até que, qualquer cultor de destituições de obras de arte, fosse escarafunchar os olhos do medalhão, à maneira dos brutos analfabetos que, com um prego, tiram os olhos aos fariseus pintados nos azulejos.

Evitemos também que se repita pela boca dum garoto o dito do garoto do lenda do Rei vai nu, e, para evitar isso, eu próprio me embrulharei nesta andrajosa capa que acabo de vos mostrar, que é muito minha, infelizmente, mas que eu nunca urdi nem talhei...

 

De V. Exª. Ato. Venor.

 Carlos Reis"